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Por Vera Lúcia Espinoza
“Quando
escrevi nesse prontuário, só eu e Deus
entendíamos o que significava. Infelizmente
hoje, o único que o pode decifrar é
Deus.”
Expressão
já incorporada ao folclore popular, “letra
de médico” é utilizada na caracterização
daquele que escreve de forma absolutamente incompreensível
para o leitor. A pressa é o principal motivo
justificador dos hieróglifos feitos nas receitas
e nos prontuários médicos.
Nas receitas médicas, a dificuldade de leitura
é freqüente: a tentativa de decifrar a
letra do médico já propiciou que fossem
ministrados ao paciente, Digoxina em vez de Dipirona,
Otenol em lugar de Atenol, Platiran em lugar de Pertiran,
e por aí vai....
Recente estudo da Unifesp revelou que menos de 34%
dos prontuários preenchidos manualmente foram
interpretados de forma correta. As anotações
no prontuário médico e as receitas com
letra legível, além do inegável
valor probante que representam, atendem a determinação
legal contida no artigo 72 do Código de Defesa
do Consumidor, que estabelece a clareza nas informações
para o paciente.
A ilegibilidade da letra pode acarretar, ainda, advertência
ao profissional, posto que o artigo 39 do Código
de Ética Médica veda ao médico
“receitar ou atestar de forma secreta ou ilegível.”
A Resolução 1601/2000 do Conselho Federal
de Medicina contém determinação
nesse mesmo sentido.
Diz a sabedoria popular que o jeito de escrever de
cada pessoa é um retrato da sua alma, portanto,
a proposta não é a adulteração
dos traços gráficos, mas, apenas e tão
somente a sua legibilidade.
Propomos a substituição dos “registros
psicográficos de uma convulsão”
por uma letra facilmente legível por leigos
e pelos próprios colegas médicos, não
só em respeito às normas legais e éticas,
mas também para a garantia de uma comunicação
eficiente, na qual a caligrafia reveste-se de extrema
relevância.
Médico
condenado
Em 1995, nos EUA, Ramon Vasquez faleceu vitimado por
um infarto aos 42 anos de idade. A família
imediatamente processou o cardiologista. O motivo:
devido à receita analfabética deste
médico, Ramon havia passado duas semanas utilizando
doses elevadas de Plendil (remédio para pressão
arterial) quando, na verdade, deveria estar tomando
Isordie (medicamento que promove dilatação
das artérias coronárias, diminuindo
o risco de infarto). Em 1999, o veredicto: O médico
foi condenado a pagar uma indenização
de US$ 225 mil à família do falecido.
O farmacêutico responsável pela entrega
equivocada do remédio foi multado em igual
valor. Esta ação entrou para a história
como a primeira condenação de um médico
nos EUA por negligência devido à má
caligrafia.
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