Fale Conosco
Associe-se
:: DEPARTAMENTOS
:: PROGRAMAÇÃO
Científica
Social/Cultural
Esportiva
Comunidade
Mural de Eventos
:: SERVIÇOS
Poupe seu tempo
Benefícios
Classimed
:: ASSOCIADO
Utilitários
Artigos
Atividades
Álbum SMCC
:: NOTÍCIAS
Da SMCC
MedicAção
Variedades
  Anna Valéria G. de Britto  
Triagem de câncer de pulmão por tomografia computadorizada
 

 

Em outubro de 2006, foi publicado um estudo sobre triagem de câncer de pulmão (CP) em uma das mais conceituadas revistas médicas, conduzido pelo grupo “International Early Lung Cancer Action Program” envolvendo populações dos Estados Unidos, Israel, Japão, China e Europa (NEJM,355:1763-71,2006). Foram incluídas 37.567 pessoas assintomáticas, com 40 anos e mais, com alto risco para CP, por serem tabagistas crônicas, fumantes passivas ou com exposição ocupacional importante a radônio, berílio, asbesto e urânio. Foi realizada tomografia computadorizada no começo da triagem e depois anualmente.
Houve detecção de 405 casos já no primeiro exame tomográfico e na população restante, seguida com tomografias anuais de 1993 a 2005, mais 79 casos foram diagnosticados. Do total de casos detectados, 412 tinham estágio clínico I e desses, a confirmação cirúrgica ocorreu em 347 casos. A cirurgia foi realizada ao longo do primeiro mês após o diagnóstico e a taxa de sobrevida estimada em 10 anos para esse grupo foi de 92%. Essa mesma taxa para todos com diagnóstico de CP, independentemente do tratamento e do estágio clínico, foi de 80%. Houve, portanto, um evidente benefício com ganho de sobrevida na população submetida a triagem. O tamanho mediano dos nódulos detectados ao diagnóstico, foi de 13 mm no primeiro exame e 9 mm ao longo do seguimento anual no período do estudo e o valor de cada exame tomográfico foi de 200 dólares.
Essa cifras são muito expressivas, no entanto a relação custo-benefício não foi determinada; os autores do trabalho sugerem que foi elevada. Eles comentam que as taxas de detecção são semelhantes aos “screenings” de câncer de mama em mulheres com 40 anos e mais.
Um outro estudo mais recente (JAMA, 297(9):953-61,2007), chega à conclusão oposta. Foram triados 3246 indivíduos tabagistas dos EUA e Itália com tomografias anuais por 3,9 anos em média. Houve aumento do número de casos diagnosticados (144 versus 44,5 esperados), do número de procedimentos cirúrgicos (109 versus 10,9 esperados), mas não houve diminuição significativa dos casos avançados (42 versus 33,4 esperados), nem do número de mortes por CP (38 versus 38,8 esperados).
Esses resultados, apesar dos questionamentos metodológicos feitos para os dois estudos, confirmam que a triagem por tomografia de CP é ainda assunto controverso.
Sabemos que 90% dos casos de CP relacionam-se diretamente ao tabagismo crônico. Dos 10% restantes, uma parcela não desprezível ocorre com a exposição ocupacional a fatores conhecidamente carcinogênicos e também potencialmente preveníveis. Das mortes por câncer, 30% relacionam-se ao tabagismo e sabemos que esse hábito é causa de várias outras neoplasias; faríamos triagem para todas?
Ao contrário das neoplasias de mama, de determinação multicausal e cuja importância dos “screenings”, em especial para população de mais de 50 anos é inquestionável, CP está relacionado a uma causa prevenível, portanto se justifica esse gasto?
No Brasil foram estimados 27.170 novos casos de CP para 2006, provavelmente incidência subestimada, pois a cada ano nos Estados Unidos, onde a incidência de CP é menor que a nossa, ocorrem 173.000 novos casos. Considerando o tamanho de ambas as populações e supondo uma incidência igual, teríamos mais ou menos 100.000 novos casos ao ano. A magnitude de um “screening” para detectá-los seria enorme.
O Brasil foi o 2º. país que assinou a Convenção-Quadro para controle do tabagismo, programa internacional de grande abrangência, coordenado pela Organização Mundial de Saúde, criado na 56ª. Reunião da Assembléia Mundial de Saúde em 2003, mas o projeto aqui está parado no Senado, pois lhe foi retirado o caráter de urgência. O que para nós é importante é intensificar nossos programas de controle do tabagismo inserindo-os de fato na atenção primária através de equipe multidisciplinar e com tratamento medicamentoso anti-tabágico inclusive, quando indicado.
A nós médicos, cabe assumir cotidianamente nossa função educativa de orientar sobre os riscos de cânceres e demais doenças associadas ao tabagismo, na tentativa de dissuadirmos nossos pacientes desse hábito tão devastador e discutir a importância da triagem, considerando o risco de cada indivíduo.

 

Dra. Anna Valéria G. de Britto é Oncologista e Epidemiologista
Coordenadora do Comitê de Especialidade em Onco-Hematologia e Radioterapia da Unimed Campinas e presidente do Departamento Científico de Oncologia da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas