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Artigo: Dia das Mães
 Maria Rita Almeida Correa

20/01/2010

                           

       Carla foi para a área de serviço levando a nenê dentro de um cestinho. Sorriu, beliscou as bochechas gordinhas, colocou o cesto em cima do armário, abriu a máquina e começou a pendurar a roupa. Estende, pendura, prende, estende... Os dois varais ficaram repletos de roupas de cores claras. Missão cumprida.
       Foi para a sala, assobiando um tema alegre. Colocou um cd para tocar e se deitou no sofá, pernas pra cima, a ler uma revista fútil e colorida; que delícia! Em seguida tomou um banho, cantarolando e pensando na aula que estava preparando para o dia seguinte. Sentada à mesa da cozinha refez algumas anotações enquanto comia umas bolachas recheadas, fantásticas, que haviam sobrado. Depois pensou que devia ter guardado o apetite para o jantar. Jantar... Quem sabe pedir uma pizza quando o Jorge chegasse? E colocar sobre uma toalha xadrez, vela em castiçal improvisado com uma garrafa, jantar à luz de velas, há quanto tempo não namoravam assim, desde...desde...???
       Saiu desesperada a correr em direção à área de serviço. Empurra roupa daqui e dali, molhada, gruda, agh, empurra, sai... ah!
       Deitada no cestinho, quietinha e relaxada, a Bibi dormia. No primeiro momento, Carla quis morrer! No segundo, olhou ressabiada para as sacadas das outras áreas de serviço do prédio, se indagando se alguém teria visto o cestinho ali, com a menina. Tentou calcular a posição em que estaria no apartamento da frente e se pôs na ponta dos pés a ver se conseguiria enxergar uma criança nas mesmas condições se estivesse no outro apartamento. Deu impulso e pulou para cima, uma, duas, três vezes. Não chegou a conclusão nenhuma. Mas a Bibi sabia! Não importava o que qualquer outra pessoa pensasse; a Bibi e ela mesma sabiam! Meu Deus, o que significaria esse esquecimento? A Bibi teria problemas de rejeição por causa desse episódio? O que o Jorge ia pensar quando soubesse? Seus olhos se encheram de lágrimas.
       Então a nenê se mexeu. Fez movimentos desajeitados de se espreguiçar e abriu uma boca enorme, nossa, maior que o rosto quase... e abriu os olhos pretos redondinhos. Carla, de repente, se percebeu sorrindo, quase babando...
       Suspirou. Puxou a Bibi para o seu colo, atravessou as cortinas de roupas e entrou para o apartamento, assobiando uma música alegre.