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  ARTIGO  
Faculdade de Medicina: Mais uma?   22/06/2011


O Correio Popular noticiou a intenção que tem a Santa Casa de Campinas, de criar e sediar uma Faculdade de Medicina, tendo já tomado as providências iniciais para obter a autorização do MEC.
Entendo oportuna as considerações que a seguir tecerei sobre o assunto:
Campinas precisa disso? Positivamente não!
Com méritos, há anos damos a nossa contribuição ao encaminhar ao mercado de trabalho específico, um contingente anual de 170 novos médicos (60 formados pela PUCC e 110 pela UNICAMP). Aqui não há carência desses profissionais. A nossa relação médico/paciente é plenamente satisfatória e atende às nossas necessidades.
Nosso primeiro enfoque volta-se para a situação e extensão geográfica do complexo hospitalar Santa Casa / Irmãos Penteado.
Juntos, os hospitais ocupam a metade do quarteirão delimitado pelas avenidas Anchieta e Júlio de Mesquita e ruas Benjamin Constant e Barreto Leme. Na outra metade se localiza a Prefeitura e sua Biblioteca. Essas vias permanecerão “ad eternum” como estão. Não é possível alargá-las.
Os prédios do complexo são antigos. Compostos em sua maioria, por cômodos pequenos, porque são quartos destinados à internação de pacientes. Existem muitos corredores delimitando áreas. Condições nada apropriadas para servir de salas de aula. Vale lembrar, por exemplo, que a capela lá existente é tombada pelo Patrimônio Histórico e Cultural da cidade. Não sei se o tombamento se estende a outras áreas ou dependências, limitando ou impedindo reformas e/ou ampliação.
Pelo que foi publicado, a intenção da Irmandade é que – se instalada – sejam abertas de início, 120 vagas. Como o curso tem duração de seis anos, conclui-se que no seu total funcionamento 720 alunos estarão ocupando os casarões.
A esse contingente, adicione-se o grande “staff”- meio constituído por professores, técnicos, burocratas, pessoal de enfermagem, de limpeza, de segurança etc. E, naturalmente os pacientes, alvo de toda a instituição. Tudo isso agregado aos que hoje já lá trabalham. Não é exagero pensarmos em mil pessoas aproximadamente, caminhando pelos corredores entre macas, cadeiras de rodas, carrinhos de roupa suja etc. um verdadeiro caos!
“Mutatis Mutantes”, o mesmo vai acontecer com o entorno dos prédios, com significativo aumento de veículos em circulação. Uma bomba-relógio de efeito retardado, no colo dos próximos prefeitos.
E atentem para a comparação: A Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com todos os recursos que tem, com todo o espaço que desfruta no campus, com as construções vastas e modernas da Faculdade, do HC, do CAISM, e de outros anexos, dispõe de 110 vagas aos vestibulandos.
Com suas acanhadas acomodações, não será muita pretensão da Santa Casa, oferecer 120 vagas?
Mas não é só isso. Comenta-se que, para a formação do corpo docente serão aproveitados os médicos que integram o corpo clínico da instituição. Não temos dúvida que os seus integrantes são profissionais idôneos, competentes, abnegados e todos eles dignos de nossa maior admiração. Mas é preciso que se diga, desde logo, que há uma diferença enorme entre ser médico e ser professor de médicos.
Professor, com letras maiúsculas, é aquele que se dedica em tempo integral à carreira universitária. Esse tipo de mestre carrega em seu “curriculum” defesa de teses (mestrado, doutorado, pós-doutorado), publicação de trabalhos em revistas especializadas, participação constante em congressos, jornadas e outras atividades didáticas, pesquisas, ponderável experiência teórica e prática no setor que abraçou, conduta ética irrepreensível e muito mais. Com esse cabedal de virtudes, são poucos os disponíveis no país.
A leitura do texto publicado pelo jornal, mencionado no início desta matéria, deixa clara a importância que a Irmandade dá ao aspecto econômico/financeiro que a iniciativa pode trazer para a Santa Casa. O aumento substancial com que o governo federal subsidia a instituição e a arrecadação com as mensalidades a serem cobradas dos alunos: R$ 3.000,00 (três mil reais por mês) por aluno é a pretensão já mencionada.
Portanto, a pretensa criação dessa escola se destina tão somente a resolver de vez o problema econômico da Santa Casa. É o que nos parece. Por tudo isso, sou contrário a criação dessa faculdade, a meu ver, DESNECESSÁRIA.


Rui Ferreira Pires é médico, conselheiro Vitalício da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas