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À luz das artérias

21/06/2001


Lá vai ele ao volante de seu carro. Impecável, camisa passada no tintureiro, vinco perfeito, gravata afrouxada (o nó windsoriano será cautelosamente reconstruído no destino). Sapatos lustrosos e cabelos idem. Trocou o relógio digital com barômetro e a fitinha de São Jorge por um Citizen dourado emprestado do papai. Carrega os indícios discretos, mas visíveis, de neófito daquela sociedade que já foi secreta e hoje é apenas influente. Decorou todas as falas e anotou mentalmente as recomendações da revista quinzenal. Mandou lavar e lustrou pessoalmente seu 1000 cc financiado ("Quem não cuida do que é seu, como poderá tomar conta do que pertence a outros ?") Treinou o sorriso, abandonou o cigarro, camuflou a tatuagem e está municiado de pastilhas sabor vaso sanitário.Agora sua sorte vai mudar. Esse emprego será o que lhe faltava. Será pontual porque já sabe que a Companhia é subsidiaria daquele grupo que mede o tempo em frações de minuto. O entrevistador será mais um gerente de sotaque indefinível exportado da matriz, com as bênçãos da globalização (Aquela história: "Vamos brincar de trabalhar juntos: você de subalterno e eu de patrão").Só mais 3 semáforos até o destino. "Tá chegando a hora". E aí o trânsito empaca. Ameaça um pouquinho e pára de novo. Desta vez , de vez. Os ponteiros do Citizen moem soberbamente os minutos que passam. Inexoravelmente. Liga o rádio para distrair o pensamento que já adquire tons de roxo. O locutor, estridente e triunfalista anuncia com timbre de fim de feira as últimas peripécias dos governantes pátrios e suas patéticas desculpas. Barbalhos de molho que a rotatividade no senado já aponta para o Guiness Book of Records. Dedos tamborilando, coração em ritmo de Rap, o cigarro que faz falta, esse idiota do rádio despejando decibéis nos alto-falantes de 50 watts. Ele agora vê a todos como conspiradores, sádicos sacanas que o mantêm aprisionado a poucas quadras da felicidade.Nada a fazer. O caminhão da empresa de energia tem de trocar as lâmpadas dos postes no dever cívico da economia elétrica. Mais um ouro para o bem do Brasil. Agora todos ficam feios, desprezíveis e desagradáveis. Esse amarelinho metido e safado. Ódio ao orelhudo da podreira à sua frente. E essa despudorada dondoca do Audi ao lado? Este trânsito não anda. Maldito caminho. Ele está se consumindo. Bye-bye otimismo juvenil. Bem-vindo ao mundo da úlcera e da hipertensão.