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  Albert Zeitouni  
47 anos
15/08/2002


À noite de autógrafos estava concorrida. Mais de duas centenas de pessoas amantes da poesia se espremiam nos três salões contíguos dificultando a passagem dos garçons que equilibravam as taças de vinho branco e torradas com patês multicolores de origens indefinidas. O toque de classe seria dado pela audição de um esforçado quarteto de cordas não fosse o tumulto sonoro dos presentes. No ruído de fundo das conversas, saltavam com freqüência inquietante as exclamações, as gargalhadas e os chamados a distância. Os músicos, entre humilhados e conformados, atacavam de Villa Lobos, e as notas musicais trotavam perdidas no labirinto da poluição das vozes. Alguém da organização do evento tivera a idéia de queimar incenso de arruda, emprestando assim um toque de refinado zen budismo à atmosfera intelectual e recolhera um resultado semelhante ao de desinfecção sanitária. O escritor recebia a fila de convidados de livros na mão que se acotovelando frente à mesa, aguardavam o momento de soprar frases preparadas ao autor, esperando serem ouvidos no raio de seis ou sete pessoas, na manifestação de erudição duvidosa de livros nunca lidos. Obtida a dedicatória, voltavam aliviados ao convívio da festa, mostrando a muitos as palavras de intimidade carinhosa desenhadas pelo poeta na página de abertura da obra cujo destino seria a inevitável virgindade. Gonzaga estava por lá , meio que deslocado, rolando o copo na mão ensopada da transpiração do líquido. Herminia ao seu lado era toda sorrisos cumprimentando alegremente a uns e outros sentindo-se vitoriosa com o sucesso do arrasto do marido ao evento. Vestia um lindo xale catalão e um chapeuzinho mole desses que encontramos nos mercados de pulgas parisienses. Nisso se assemelhava a todas as fêmeas presentes que entendem que em ocasiões como estas são necessárias pelo menos três coisas: uma roupa que aponte para sua condição de cidadã do mundo, uma alegria infinita com a manifestação artística e uma intimidade impensável com alguns candidatos a famosos. Tudo isso salpicado por uns adjetivos em língua estrangeira com sotaque regional.Gonzaga, já com o olhar vazio dos entediados em contraste com um sorriso rictual, enxergou por sobre os chapéus e os penteados uma cabeça que ao balançar enfaticamente lhe parecia familiar. O movimento de tão inusual só poderia ser do grande amigo da segunda juventude. Confirmou-se a percepção quando por um instante Lacerda se virou. Instantaneamente abriu os braços e um sorriso em direção ao amigo que já não via desde a Copa da França. Algo dizia a Gonzaga que alguma coisa estava fora de lugar, e assim de pronto, identificou os cabelos excessivamente negros, com pequenos tufos a brotar na linha do frontal, os dentes mais uniformes e brancos do que nunca e a companhia loira, alta e gesticulante. Abraçaram-se convencionalmente, embora com genuína sinceridade e Lacerda antecipou-se à pergunta matadora (“sua filha?”) anunciando Helô, a nova companheira, evitando cuidadosamente a pronuncia do nome da ex-esposa e rapidamente mudando de assunto para os amigos comuns, o trabalho, o sucesso e assim por diante. Nada de perguntar pelos filhos, já que a boa educação exigiria uma preocupação recíproca. Helô, muito modernosa, pendurava-se no ombro de Lacerda com as duas mãos e acompanhava a conversa com uma familiaridade estonteante. Herminia por sua vez desaparecera atrás de uma bandeja balbuciando alguma desculpa. Lá pelas tantas e por razões que só a malandragem do inconsciente pode explicar, Lacerda escorregou furtivamente, assim como quem não quer nada, a informação de que faria 47 anos em duas semanas e que esperava o Gonzaga em petit comitê. Este, atingido no peito pela informação que contrariava os cinco anos omitidos na conta, esperou o sinal da cumplicidade na mentira, para então poder tolerá-la e exercer a solidariedade dos amigos. Mas Lacerda nem piscara, e condenava Gonzaga, que tinha a mesma idade, a se tornar meia década mais velho