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A Escadaria |
20/09/2001 |
Ela já descera 21 andares e seucorpo obeso
pesava mais a cada pavimento vencido. Sentia-se ofegante
e nãopodia mais ignorar as pancadas do coração
sobrecarregado pelas sucessivascamadas de gordura
de cheseburgers de quatro décadas. O peito
urrava porum descanso impossível. A longa fila,
espantosamente disciplinada, marchavapelas escadas
sem atropelos. Uma estranha quietude dominava a todos.
Ela agarrava contra o corpo a bolsa e a sacolinha
do lanche que seria seu habitualalmoço. Porque
o trouxera no pânico era irrespondível.
Mais tarde interpretouque aquele sanduíche
de peito de peru defumado e a pêra eram o vínculo
com seular, seus três filhos e o quase sempre
ausente marido. O vestido roxoincomodava a livre passada
das grossas pernas e os sapatos machucavam ostornozelos
edemaciados. No momento da ordem de evacuação
não tivera comodepurar a perplexidade. E agora,
o cérebro tentava se concentrar na marchacadenciada
rumo ao nível do chão, a visão
do céu e a retomada da vida. Nãoresistiu
à compulsão de contar os degraus e isso
a distraia, fazendo ossucessivos pisos encolherem
a proximidade da ansiada liberdade. O jovem a sua
frente tossia convulsivamente. Seus cabelos estavam
encharcados de sangueespesso que escorria como um
colar tentaculado sobre o paletó cinza. No
ar umcheiro sufocante de querosene e poeira nauseava
a todos. Vez ou outra sobressaia o murmúrio
de uma oração, e ela mentalizou os hinos
de sua Igreja Batista, na Rua 131 Oeste, de onde seus
lamentos negros glorificavam o Senhor todos os domingos.
Sabia que algo horrível sucederae procurava
não pensar no assunto. Resistiu à vontade
de comentar e intuiu que haveria muito tempo para
isso depois. Reservou assim, como quem preserva apureza,
os comentários excitados que se sucederiam.
Não os deveria macularagora. Depois, depois...
repetia mentalmente. Agora só queria sair dali
e reencontrar os seus. Nem o grande ruído,semelhante
ao uivo de um gigante, que acabava de invadir seus
ouvidos, nem mesmo o tremor que se transmitia pelos
sapatos e sacudia ainda mais o pobre coração,
a desviava da mentalização dos filhos.
Um misto de auto-piedade e amorinfinito a sufocavam.
Manteve-se à direita nadisciplina dos condenados
para dar passagem aos homens de capa amarela e preta,capacetes,
machados e cilindros às costas.Eram capitaneados
por um homem demeia idade, determinado, rosto duro
e olhos azuis curiosamente doces. Seus olhares se
cruzaram e ela estremeceu com a centelha da vida que
permutava sua salmas. Na faísca, sentiu a revelação
que reveria seus filhos amados, e adolorosa certeza
que esse homem morreria por eles.
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