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  Albert Zeitouni  
A Húngara

16/08/2001


Quando ele avistou Margit, ela estava vinte quilos mais gorda, mas suas volumosas nádegas conservavam o sobe-desce que chamara sua atenção quando ainda era acadêmico de Direito. Nessa época, ele tinha por hábito sentar nos bancos de cimento da pracinha a duas quadras da faculdade e ali flanar entre leituras distraídas dos Cânones. Circundando o pequeno jardim e seu chafariz estavam a avenida e três lados de pequenos edifícios de apartamentos . Em várias ocasiões vira a então jovem de vestido apertado, florido e inadequado sair do saguão sem porteiro do prédio de tijolos em cima da floricultura. Ela ia em seu passo apressado carregando a sacola de plástico trançado. Beleza curiosa e intrigante, corpo exuberante, rosto de menina , malícia de mulher. Ela se habituara no olhar cravado às costas e sentia arder o losango de Michaelis. Finalmente, estimulou e um dia permitiu a aproximação. Disse-lhe morar apenas com o pai, emigrante húngaro, de passado inconfessável, violento e emotivo, dado a bebedeiras e depressões. Nunca dera a entender se János Szabó tinha sido comunista , nazista ou ambas as coisas. Sua inocente intuição lhe soprara que devia evitar certos assuntos, pois acabariam por expor mãos ensangüentadas, esposas espancadas e vítimas destroçadas. As conversas com Margit eram curtas e furtivas, e seus olhos muito azuis e amendoados oscilavam o tempo todo entre as janelas do 2o andar e o rosto daquele a quem diria amar um dia. E foi o que ela fez naquele fim de tarde, depois do pai sair para seu misterioso ritual noturno. Levou-o para dentro do mofado edifício, e no patamar do 1o andar sussurrou a confissão na linguagem universal que prescinde de tradução. "Szretlek, shzretlek" . O húngaro é uma língua curiosa, e se assemelha apenas ao finlandês, estoniano e turco. Traduz possivelmente a mistura do cuspe otomano, sangue magiar, e sêmen cigano nos muitos caminhos desde Índia até a Ibéria do século 11. E Margit tinha tudo isso na sonoridade do seu sotaque, nos seios fremitantes e na pressa desesperada de amar. Com as semanas vieram as imprudências e as paixões sem fronteiras. E ela o conduzia até o apartamento cheirando a cebola e páprica de muitos gordurosos goulashs. Na desordem dos pobres cômodos, entre beijos e secreções, punha a tocar o único disco que possuía. E cantava em comovente parceria com Caetano Veloso: "Soy loco por ti , América, soy loco por ti de amor". Como gostava do refrão ! Com que alegria balançava o corpo gerado na brumosa Koleske das margens do Danúbio!
Uma noite o destino pregou sua peça, quando Janós voltou antes do previsto. Esmurrou a porta , esbravejando em etílico húngaro. Escondido dentro do armário embutido do quarto de Margit, o estudante prendia a respiração e tentava adivinhar o que diziam os bigodes enormes da fera. "Nagy Kar, lány" gritava ritmicamente o gigante. E ela , entre lágrimas, se desculpava pela porta trancada . "Tessef, tessef". A noite foi um terror de insônia. A expectativa de ser estrangulado o fazia agarrar aos cabides. Janós, ruminava e resmungava entre a aguardente e o salame. Desmaiou nas trevas sobressaltadas dos assassinos, e dormiu de boca cheia. A noite toda, a interminável noite, o estudante ouvia o ressonar do bêbado esparramado no sofá da sala. Sem saída, encurralada pelo corpo do monstro, Margit ia e vinha. Em pânico, lhe soprava entre as frestas: "Seja paciente, fique aí, por favor não faça barulho, szretlek". E assim foi , entre os ruídos das vísceras de Janós, o suor enfim enxugado pela rendição ao sono de Margit e o cheiro do alho. Exausto, sonhou com uniformes, montanhas escarpadas, violinos gemendo e carroças tristemente coloridas. Foi despertado pelo dueto: "Soy loco por ti, América...". A vida recomeçava.