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  Albert Zeitouni  
A Rêmora

04/04/2002


Ainda não era hora da preparação para o encontro, e Carmen estava matando o tempo frente à TV. Jogada no sofá no seu desabillé negro com o descuido sensual que treinado por tanto tempo acabara por ser incorporado até aos hábitos solitários, apertava mecanicamente os botões do seu controle remoto. Sonhadora , surpreendeu-se observando o que se passava na telinha de um canal que sempre desprezara. Seu negócio era o mundo da moda, das fofocas e dos filmes românticos; e agora lá estava ela com os olhos fixados no Animal Planet, observando a descrição dos comportamentos de um peixinho feio e curioso. Julgou ouvir o locutor anunciar o nome do cinzento de um palmo de comprimento como “rêmula”. Esse nome nada lhe dizia, a não ser uma vaga associação com um antigo namorado, já esquecido e sepultado na poeira do tempo, chamado Rômulo. Intrigada com o próprio interesse e descartando a lembrança desse que fora apenas mais um entre muitas dúzias, reparou que o peixinho em questão, carregava no dorso uma espécie de prato com a concavidade para cima. Acompanhou os movimentos da câmera submarina e viu o exato momento em que este se aproximou do ventre encouraçado de uma majestosa tartaruga e ali se fixou. Aumentou o volume para melhor ouvir o pomposo locutor descrever o prato como sendo um “disco de sucção” que fixaria o peixinho ao quelônio. Acompanhou os movimentos graciosíssimos da enorme tartaruga dentro da água e não pode deixar de pensar no contraste brutal com sua locomoção em terra na sua marcha aos trancos, resfolegando o sofrimento da condenação dos que são obrigados a viver em dois mundos. E aí a Carmen se viu. Horrorizada, se identificou com o peixinho, cuja existência seria para sempre dependente de quem o carregasse. Sem personalidade e sem propriedade do próprio destino. Transportada onde estivesse colada, associando sua existência aos caminhos do condutor. A Rêmora se alimentava dos restos desprendidos da placa dentaria da tartaruga e lutava para alcançar os fiapos que flutuavam soltos à sua frente antes que afundassem ou fossem devorados por outros habitantes dos mares. Presa de súbita angústia, Carmen sentia seu mundo desmoronar. O insight a machucava como as pancadas da verdade desvelada. Sempre se julgara senhora do seu destino, esperta e devoradora de homens. Acreditara que sua beleza e fingida lubricidade lhe assegurariam o sustento e o conforto. E se via na figura miserável de um patético peixinho condenado a jamais ver seu protetor nos olhos, sem liberdade e sem aventuras, conduzido como reles inquilino para onde o provedor o levaria. Tentou argumentar consigo mesma e buscou consolo na sua capacidade de trocar de veículo sempre que o anterior não mais satisfizesse seus comensais interesses. A racionalização pouco durou e sua efemeridade, a fez tomar consciência de sua condição de acompanhante ocasional e desprezível. Afinal de contas quem repara no peixinho quando confrontado com a majestade da tartaruga?Carmen suspirou, tentou enxugar a furtiva lágrima (inexistente, pois havia muito seu coração endurecera), e desligou a TV. Foi ao boudoir, escolheu um vestido para matar, soltou os cabelos, maquilhou-se cuidadosamente descontando cinco anos das rugas incipientes, perfumou-se de violetas e empinou os seios dentro do mais apropriado soutien. Satisfeita , admirou-se no espelho que teimava em refletir os contornos do que lhe pareceu ser um disco de sucção.