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A Rêmora
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04/04/2002 |
Ainda não era hora da preparação
para o encontro, e Carmen estava matando o tempo frente
à TV. Jogada no sofá no seu desabillé
negro com o descuido sensual que treinado por tanto
tempo acabara por ser incorporado até aos hábitos
solitários, apertava mecanicamente os botões
do seu controle remoto. Sonhadora , surpreendeu-se
observando o que se passava na telinha de um canal
que sempre desprezara. Seu negócio era o mundo
da moda, das fofocas e dos filmes românticos;
e agora lá estava ela com os olhos fixados
no Animal Planet, observando a descrição
dos comportamentos de um peixinho feio e curioso.
Julgou ouvir o locutor anunciar o nome do cinzento
de um palmo de comprimento como “rêmula”.
Esse nome nada lhe dizia, a não ser uma vaga
associação com um antigo namorado, já
esquecido e sepultado na poeira do tempo, chamado
Rômulo. Intrigada com o próprio interesse
e descartando a lembrança desse que fora apenas
mais um entre muitas dúzias, reparou que o
peixinho em questão, carregava no dorso uma
espécie de prato com a concavidade para cima.
Acompanhou os movimentos da câmera submarina
e viu o exato momento em que este se aproximou do
ventre encouraçado de uma majestosa tartaruga
e ali se fixou. Aumentou o volume para melhor ouvir
o pomposo locutor descrever o prato como sendo um
“disco de sucção” que fixaria
o peixinho ao quelônio. Acompanhou os movimentos
graciosíssimos da enorme tartaruga dentro da
água e não pode deixar de pensar no
contraste brutal com sua locomoção em
terra na sua marcha aos trancos, resfolegando o sofrimento
da condenação dos que são obrigados
a viver em dois mundos. E aí a Carmen se viu.
Horrorizada, se identificou com o peixinho, cuja existência
seria para sempre dependente de quem o carregasse.
Sem personalidade e sem propriedade do próprio
destino. Transportada onde estivesse colada, associando
sua existência aos caminhos do condutor. A Rêmora
se alimentava dos restos desprendidos da placa dentaria
da tartaruga e lutava para alcançar os fiapos
que flutuavam soltos à sua frente antes que
afundassem ou fossem devorados por outros habitantes
dos mares. Presa de súbita angústia,
Carmen sentia seu mundo desmoronar. O insight a machucava
como as pancadas da verdade desvelada. Sempre se julgara
senhora do seu destino, esperta e devoradora de homens.
Acreditara que sua beleza e fingida lubricidade lhe
assegurariam o sustento e o conforto. E se via na
figura miserável de um patético peixinho
condenado a jamais ver seu protetor nos olhos, sem
liberdade e sem aventuras, conduzido como reles inquilino
para onde o provedor o levaria. Tentou argumentar
consigo mesma e buscou consolo na sua capacidade de
trocar de veículo sempre que o anterior não
mais satisfizesse seus comensais interesses. A racionalização
pouco durou e sua efemeridade, a fez tomar consciência
de sua condição de acompanhante ocasional
e desprezível. Afinal de contas quem repara
no peixinho quando confrontado com a majestade da
tartaruga?Carmen suspirou, tentou enxugar a furtiva
lágrima (inexistente, pois havia muito seu
coração endurecera), e desligou a TV.
Foi ao boudoir, escolheu um vestido para matar, soltou
os cabelos, maquilhou-se cuidadosamente descontando
cinco anos das rugas incipientes, perfumou-se de violetas
e empinou os seios dentro do mais apropriado soutien.
Satisfeita , admirou-se no espelho que teimava em
refletir os contornos do que lhe pareceu ser um disco
de sucção.
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