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  Albert Zeitouni  
A Manifestação

06/03/2003


O fator determinante da participação de Josias na marcha pela paz foi o desejo de obter a admiração e o respeito da Carla. Não se pode ser injusto com o rapaz, subestimando seus sentimentos humanísticos ou seu entusiasmo com o mundo novo a ser construído por cima das cinzas da malvadeza e da prepotência. Dele, em muitas ocasiões, ouviu-se inflamados e sinceros argumentos acerca da natureza corrompida da espécie.Desenhava então, com seu vocabulário superlativado, embora limitado, o projeto de uma sociedade fraternal e companheira, da mesma forma como todos os jovens que o antecederam na marcha da história fizeram. Não se podia deixar de notar nele a nostalgia de tempos heróicos que não vivenciara, e o desgosto em deixar escoar a benção dos vinte e poucos anos sem uma causa para recordar nos tempos de ganhar o pão de cada dia. A inveja e a raiva por ainda não ter sido concebido para as marchas de 1968, quando era proibido proibir ou das manifestações contra a guerra do Vietnã que vira até decorar em cada detalhe no Hair, foram compensadas por uma singular participação nos movimentos das Diretas Já e de deposição do Collor. Nesta ocasião, com o coração batendo forte, sentiu-se gente e suas lágrimas lambuzaram o guache verde-amarelo no rosto espinhento. Carla tinha um temperamento forte, e por trás dos óculos sem aro, por vezes um pequeno brilho de suavidade lampejava sua feminilidade. Amarrava os cabelos em rabo de cavalo e raramente se pintava. Falava aos borbotões, e enfatizava neologismos com pequenas sacudidas nas sílabas. Tratava os rapazes como iguais e acabou tendo um certo sucesso ao ser aceita como fazendo parte da confraria. Josias se encantou com a personalidade forte da jovem, e como o mundo não é feito apenas de ideais, percebeu os encantos que se escondiam por baixo dos vestidos rodados e a desejou como se soe desejar. Combinaram permanecerem juntos na passeata e desenharam cartazes com os dizeres de John Lennon (“Guive to peace a chance”), encimando a figura de um bebê pelado esticando as mãozinhas para cima. Haviam assistido na TV, as manifestações por todo o mundo, e se encantaram com os corpos das centenas de australianas nuas, com a coreografia das coreanas, com as ruidosidades embandeiradas dos Kefiehs e da multiracialidade em Londres. Viram com uma certa apreensão bandeiras queimadas, caricaturas ofensivas e rostos contorcidos de ódio. Lembraram de outras manifestações em favor da paz, quando vestidos de branco, mãos no peito a imitar uma pomba, saíram às ruas ao comando de artistas famosos, pedindo o fim da violência e dos seqüestros. A intenção foi boa, mas como sabemos tivemos poucas respostas positivas até o presente. Jovens não desanimam facilmente, principalmente quando a causa é nobre. Afinal, quem pode se atrever opinando pelo seu oposto que é a guerra, a fome e a destruição. Carla e Josias ficavam do lado moralmente certo e assim conquistavam o monopólio da virtude. Não haveria argumento que não os indignasse legitimamente. Assim, no dia da marcha, encontraram milhares de companheiros, e uniram suas vozes cada vez mais ruidosas, para serem ouvidas para além das montanhas e através dos desertos. O horror à guerra somou-se ao ódio às injustiças, ao ódio aos opressores e ao ódio aos inimigos (e cada um tem os seus). E também foram queimadas bandeiras, foram pisoteadas efígies e transbordaram os ressentimentos. A massa, no frenesi da catarse, acabou por glorificar o tirano. Josias agora era sujeito da história e Carla ao lado lhe sorriu vitoriosa quando ele atirou a primeira pedra na vidraça da lanchonete de fast-food.