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A
Manifestação
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06/03/2003 |
O fator determinante da participação
de Josias na marcha pela paz foi o desejo de obter
a admiração e o respeito da Carla. Não
se pode ser injusto com o rapaz, subestimando seus
sentimentos humanísticos ou seu entusiasmo
com o mundo novo a ser construído por cima
das cinzas da malvadeza e da prepotência. Dele,
em muitas ocasiões, ouviu-se inflamados e sinceros
argumentos acerca da natureza corrompida da espécie.Desenhava
então, com seu vocabulário superlativado,
embora limitado, o projeto de uma sociedade fraternal
e companheira, da mesma forma como todos os jovens
que o antecederam na marcha da história fizeram.
Não se podia deixar de notar nele a nostalgia
de tempos heróicos que não vivenciara,
e o desgosto em deixar escoar a benção
dos vinte e poucos anos sem uma causa para recordar
nos tempos de ganhar o pão de cada dia. A inveja
e a raiva por ainda não ter sido concebido
para as marchas de 1968, quando era proibido proibir
ou das manifestações contra a guerra
do Vietnã que vira até decorar em cada
detalhe no Hair, foram compensadas por uma singular
participação nos movimentos das Diretas
Já e de deposição do Collor.
Nesta ocasião, com o coração
batendo forte, sentiu-se gente e suas lágrimas
lambuzaram o guache verde-amarelo no rosto espinhento.
Carla tinha um temperamento forte, e por trás
dos óculos sem aro, por vezes um pequeno brilho
de suavidade lampejava sua feminilidade. Amarrava
os cabelos em rabo de cavalo e raramente se pintava.
Falava aos borbotões, e enfatizava neologismos
com pequenas sacudidas nas sílabas. Tratava
os rapazes como iguais e acabou tendo um certo sucesso
ao ser aceita como fazendo parte da confraria. Josias
se encantou com a personalidade forte da jovem, e
como o mundo não é feito apenas de ideais,
percebeu os encantos que se escondiam por baixo dos
vestidos rodados e a desejou como se soe desejar.
Combinaram permanecerem juntos na passeata e desenharam
cartazes com os dizeres de John Lennon (“Guive
to peace a chance”), encimando a figura de um
bebê pelado esticando as mãozinhas para
cima. Haviam assistido na TV, as manifestações
por todo o mundo, e se encantaram com os corpos das
centenas de australianas nuas, com a coreografia das
coreanas, com as ruidosidades embandeiradas dos Kefiehs
e da multiracialidade em Londres. Viram com uma certa
apreensão bandeiras queimadas, caricaturas
ofensivas e rostos contorcidos de ódio. Lembraram
de outras manifestações em favor da
paz, quando vestidos de branco, mãos no peito
a imitar uma pomba, saíram às ruas ao
comando de artistas famosos, pedindo o fim da violência
e dos seqüestros. A intenção foi
boa, mas como sabemos tivemos poucas respostas positivas
até o presente. Jovens não desanimam
facilmente, principalmente quando a causa é
nobre. Afinal, quem pode se atrever opinando pelo
seu oposto que é a guerra, a fome e a destruição.
Carla e Josias ficavam do lado moralmente certo e
assim conquistavam o monopólio da virtude.
Não haveria argumento que não os indignasse
legitimamente. Assim, no dia da marcha, encontraram
milhares de companheiros, e uniram suas vozes cada
vez mais ruidosas, para serem ouvidas para além
das montanhas e através dos desertos. O horror
à guerra somou-se ao ódio às
injustiças, ao ódio aos opressores e
ao ódio aos inimigos (e cada um tem os seus).
E também foram queimadas bandeiras, foram pisoteadas
efígies e transbordaram os ressentimentos.
A massa, no frenesi da catarse, acabou por glorificar
o tirano. Josias agora era sujeito da história
e Carla ao lado lhe sorriu vitoriosa quando ele atirou
a primeira pedra na vidraça da lanchonete de
fast-food.
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