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Adelópolis

31/10/2002


Muitas vezes voltei a Adelópolis. E não porque me fosse interessante comercialmente. Afinal de contas ela não passa de uma pequena cidade que teima em sobreviver no vale a poucos quilômetros da BR. Lá estive pela primeira vez, por pura necessidade mecânica do ônibus que me conduzia à capital. Chamou-me a atenção como pequenas distâncias podem se tornar infinitas quando transitamos pela sacolejante variante de terra batida entre cercas de fazendas de gado e curvas surpreendentemente absurdas para a topografia da região. Na época eu era caixeiro viajante e hoje sou representante comercial de uma firma de implementos agrícolas. Embora isso mude pouco a substância do meu ofício, não deixa de ser uma evolução interessante para meu status social. Troquei o coletivo por um automóvel - o que me dá uma certa independência - e me hospedo em hotéis melhores que as pensões baratas do passado. E mais importante de tudo, minha mulher pode declinar minha profissão sem ter de tolerar os sorrisos maliciosos de quem entende que longas ausências promovem um relaxamento da fidelidade. Aquela coisa de "longe dos olhos....", bom, vocês entendem.No Empório do Mineiro, que divide parede com a Hospedaria Adelópolis, entre um gole e outro de cachaça da boa, fiquei sabendo que a feliz união de duas famílias há século e meio, sacramentou a gestação da comarca elevada à condição de município poucos anos depois às custas de influência política. Atravessando a praça, na Tabacaria dos Naves, me foi insinuado que aí entrou em cena algum dinheiro e uma promessa de silêncio a respeito de episódio escandaloso envolvendo a honra conjugal de determinado cidadão influente nas altas esferas. Como aquilo que une acaba por desunir, no caso de Adelópolis - como não podia deixar de ser - a briga foi por dinheiro, mulher e poder. Não me contaram os detalhes, até mesmo porque seriam parciais e injustos como em toda tentativa de versão de verdade nesse lugar. O fato é que os Naves e os Alencar passaram a se odiar visceralmente depois de uma questão confusa que envolveu o patriarca dos primeiros e uma jovem muito bonita e atirada dos segundos. Parece ter corrido algum sangue, mas aí as interpretações passam a ser muito contraditórias. Na Tabacaria Naves e no Empório Mineiro, ouviam-se histórias moderadamente semelhantes, mas com desfechos diferentes. Eu sou um homem de paz e procurei me equilibrar como podia entre os dois clãs (tarefa muito complexa por sinal, porque em Adelópolis ou você está com Naves ou está com Alencar, e quem é indeciso acaba por ter sua masculinidade colocada em dúvida), mas meu bom humor, associado a alguns malabarismos verbais, me preservou de ter que optar. Assim, quando um grupo era UDN o outro era PSD, Arena e MDB, Atlético e Cruzeiro, Xuxa e Angélica, tudo tinha que ser o antípoda do outro não importando as idéias ou qualidades. O que um dizia era necessariamente falso para o outro. O que era interessante para a turma dos Naves era desprezível para os seguidores dos Alencar, e não havia argumento que conciliasse ou que ao menos sensibilizasse. Em Adelópolis, o que é vale é manter a adversidade. Nesse fim de mundo, onde muito pouco acontece, o povo encontra sua razão de viver na polêmica desprovida de racionalidade. Fazer parte de um dos dois grupos em Adelópolis é passaporte para uma comunidade cuja missão é confirmar sua individualidade em oposição ao outro. Nas minhas andanças neste mundo afora encontrei muitas Adelópolis, mas nenhuma com um nome tão adequado quanto a essa cativante cidadezinha que não cresce e fenece no vale escondido por colinas, onde serpenteia uma variante de terra batida com traçado que insulta a lógica e privilegia os contornos das propriedades dos Naves e dos Alencar.