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24/05/2001


Lembra dos bons tempos em que você levava seu carro zerinho para uma revisãozinha ? Tempos de Dólar a 0,90. Você de manual na mão, superior e quase na tangente da arrogância: "Dá uma conferida e veja se precisa fazer alguma coisa. Não se preocupe com o gasto que a garantia cobre" . A recepcionista, simpática, make-up caprichado, tailleur 3 dedos acima do joelho, salto no limite da rebolada bem comportada - conquistar o cliente sem arrumar encrenca com a patroa é a orientação do marqueteiro da concessionária - logo te leva ao chefe da oficina. Este é atento, educado, doutor pra cá, doutor pra lá, logo sacava sua ficha cadastral. Verificou algum defeito ? Ah ! O rangido atrás do volante, o freio esta um pouco alto, o relógio atrasa 1 minuto por dia... ordens de serviços preenchidas. Lépido, desaparecia com seu 16 válvulas, automático, air-bag e com todos os opcionais que o financiamento permitiu. Seu brinquedo desaparecia no reflexo das lâmpadas néon, e o guinchar esganiçado dos pneus radiais abortavam o soluço da despedida. A carona de volta era assegurada, o motorista prestativo, comentários sobre o tempo, o futebol e a violência. "Posso buscar o senhor na sexta-feira. Tá combinado !"Dia e hora marcados e lá estava você. De novo na recepção, matando o tempo com o folder - magnífico - de outros modelos. Recepção, salamaleques, joelhinhos e cafezinho de máquina. "Doutor, um momentinho, já estamos emitindo a nota". Mais um cafezinho e pronto. Aí era só assinar a ordem de serviço e pagar uns tostões pelo óleo do motor e um aditivo para o radiador.O que você assinava era uma interminável lista de itens checados, peças substituídas, regulagens, cambagens, correias dentadas e banguelas, molas, molejos e misteriosos circuitos impressos.O veiculo saía tal como chegara: perfeito, redondo, ronronando HPs.Você achava que nada havia pagado, que esse tratamento e esta generosidade eram uma forma de te privilegiar e reverenciar.Hoje, você está provavelmente mais pobre, mas pode não ter perdido o cacoete. Talvez proceda da mesma forma com seu plano de saúde. Se seu carro pode, porque não você ? Um check up com tudo que o Fantástico do domingo prometeu, junto com a imortalidade. Um novo exame, uma nova técnica diagnóstica. Imagens coloridas do seu interior. A tradução de cada uma de suas muitas moléculas. Seus hormônios e humores. Tudo que você excreta e secreta. Com sorte e empenho, quem sabe uma nova doença. Afinal de contas, os males convencionais são tão chatos e demmodés. E tudo está incluído na mensalidade. Quanto mais luxuosa a recepção, mais tecnologia devem dispensar. É nisso que você acredita ? Seu referencial é a oficina ?A conta, que se acreditava insignificante já veio antes, e virá depois. Virá na reconvenção da mensalidade com o OK das autoridades, que diligentemente verificarão nas planihas a justiça do reajuste.Como afirmava Milton Fridman (Prêmio Nobel de Economia): "Não tem almoço grátis".