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Aníbal
e a Procrastinação
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05/09/2002 |
Ninguém soube ao certo se
a decisão de separar-se da Julia fora tomada
por Aníbal. O que ninguém duvidava é
que levaria um longo tempo para ser operacionalizada.
Assim fora a vida toda. Aníbal só fazia
o necessário quando este se tornava inadiável.
Certos psicólogos de formação
mais moderna interpretavam o fenômeno (à
sua revelia, porque Aníbal adiava constantemente
o início da terapia) como o resultado de uma
angústia provocada pela ausência prolongada
da mãe, que assim o fazia perder o gerenciamento
do tempo. A questão é que os comentários
se faziam cada vez mais insistentes e maliciosos;
e os murmúrios foram sendo substituídos
por insinuações e até afirmações
a respeito de sua passividade. Os mais amigos o defendiam
enfaticamente, proclamando o liberalismo europeu de
Aníbal, mas logo sucumbiam frente às
evidências grosseiras de que o caso era de traição
descarada e repetitiva. Corno manso era o epíteto
que coroava sua cabeça e sua reputação.
Não pensem que Aníbal sucumbia passivamente
à pressão dos que lhe queriam bem. Ou
que pelo menos assim se apresentavam. Aníbal
era culto e racionalizador, e argumentava nas longas
conversas de bar, que tomar decisões por impulso
não era sabedoria e que os gregos até
cultivavam a postergação. Dizia que
assim muitas guerras haviam sido evitadas. E que os
muito jovens, por serem impulsivos, ignoravam o poder
de cura que o tempo, por si só, promovia. Respeitosos
na sua presença, os amigos, fazendo cara de
caridosos e preocupados, vaticinavam que o destino
de Aníbal se somaria a de tantos outros da
confraria dos chifrudos. Mas o caso de Aníbal
era mais severo do que aparentava ser. Para os que
privavam de sua intimidade, era conhecida sua tendência
em adiar o que quer que fosse até os limites
do tempo. Desde a infância, Aníbal só
abria os presentes quando a pressão se tornava
insuportável. E os deveres de casa então?
Executados na madrugada quando o relógio acelera
os ponteiros e a aurora coincide com o ponto final
à frente de olhos inchados de cansaço
e exaustão. As contas eram inevitavelmente
pagas quando já vencidas somadas a todas as
multas obscenas embutidas, embora dispusesse de fundos
suficientes no banco. Adiava até a conferência
da loteria, e não porque quisesse sonhar um
pouco mais com o mesmo bilhete (e quantas vezes a
hesitação o fez esquecer do bilhete
talvez premiado), mas porque a angústia de
ter que fazer o que quer que fosse era simplesmente
insuportável. É claro que o dentista
lhe descobrira varias cáries perfeitamente
evitáveis, e por mais de uma vez arruinara
seu carro no adiamento da troca de óleo ou
na troca de amortecedores. Aníbal, à
semelhança dos egípcios antigos, dividia
a procrastinação em dois segmentos:
o primeiro da postergação do não
essencial (e nisso era campeão), e o outro
na catapulta para um futuro indefinido do absolutamente
necessário. E nisso atormentava-se continuamente
estabelecendo prazos fatais e dead lines nos quais
sempre tentava arrancar alguns segundos mais.Portanto,
Aníbal tinha de escolher a qualidade da tarefa
e definir se pertencia ao primeiro ou segundo grupo.
E assim categorizava as coisas da vida dando valor
de acordo à possibilidade da procrastinação.A
questão das traições da Julia
o fez refletir longamente se a solução
era ou não essencial, e assim definiria o quanto
de tempo teria para pospor sua decisão. A angústia
de ter de atuar se sobrepunha à humilhação
dos traídos e Aníbal prezava mais a
si mesmo. Afinal o que seria essa Julia amanhã
ou depois? Concluiu que o tempo resolveria a questão.
De uma forma ou de outra.
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