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As Coisas Do Seu Nico

09/08/2001


Seu Nico falecera havia três semanas. O enfarto o fulminara. Estava aparentemente bem. Abandonara as quatro décadas e meia de cigarro, fizera check-up e caminhava aos domingos na Lagoa depois do truco. Morrera assistindo o jornal televisivo e a família logo culpou às intermináveis más noticias que desfilavam maldosamente nas bocas e expressões robotizadas dos apresentadores. Nicolau Aparecido (nome de batismo de uma mal sucedida tentativa de conciliar a igreja ortodoxa russa do pai com o fervor católico da mãe), mantinha nos fundos da casa um cômodo onde guardava suas coisas. Homem de hábitos regulares,era bom pai, marido aceitável, estável no emprego da estatal, ganhou a aposentadoria precoce e o tédio de quem nada mais espera da vida.
Dividia muitas de suas horas agora livres entre um interminável curso de inglês e seu hobby de tantos anos. Seu Nico gostava de móbiles. Móbiles são estruturas múltiplas delicadamente equilibradas, que ao menor estímulo se movem graciosamente. Montara uma oficina no quartinho vago e o mantinha sistematicamente trancado. Com o tempo, e a hospedagem do agora genro, filha e neto (nascido da distração dos irresponsáveis), passara a se encontrar consigo mesmo na privacidade de suas exclusivas quatro paredes. Recebera enterro digno e razoavelmente pranteado. A viúva, convencionalmente inconsolável, agora se decidira a executar as coisas práticas do post-mortem. Verificara os seguros de vida, dera andamento ao inventário, esvaziara os armários e achada a chave (dentro do sapato social preto esquerdo de bico fino) invadia o que agora era dos vivos.
Muito sujo, cheirando à madeira, à cola e ao mata baratas; lá estava o arsenal do seu Nico: as furadeiras, lixadeiras, tornos, alicates; enfim a coleção completa dos sucessivos presentes dos comerciais Dia dos Pais. Na estante da parede do fundo, pilhas de tostadeiras queimadas, liquidificadores detonados, vídeo cassetes sem cabeça, dois computadores 486, montes de transformadores, aparelhos de telefone para sempre mudos e irremediavelmente surdos. Enfim, todas aquelas coisas que os homens relutam em dispor. "Sempre poderá ter uso", dizia seu Nico. E lá estavam na decoração caótica dos potes de parafusos e roscas, que cintilavam de vez em quando na confusão dos interminados móbiles. Tropeçou na desordem das caixas de som rasgadas e percebeu ao lado da bancada as esquecidas coleções de Gênios da Pintura e do Delta Larousse, edição de 1972 , pilhas do inevitável National Geographic e uma caixa de papelão. Infringiu o 11o mandamento ("não bisbilhotarás") que Moisés não divulgou por o considerar impraticável, e estuprou a privacidade do falecido. Encontrou no meio das declarações do Imposto de Renda um exemplar histórico do Ele e Ela, onde reconheceu uma loirinha redimida (pela fortuna, marketing e onanismo crônico dos consumidores de nudez de celulose) se enroscando nas pedras e rolando nas areias. Passou distraída por um monte de notas ficais esperando pela devolução do Imposto sobre Combustíveis, e recortes de reportagens das vitórias do glorioso Verdão. Espremida entre extratos do cartão de crédito, percebeu a foto . E nela estava a figura radiante do seu Nico, com o bigode que ostentara até os 43. Abraçava uma jovem, também muito sorridente. No fundo, as Cataratas do Iguaçu. Venceu a vertigem e teve a lucidez de associar a data (2 semanas antes do nascimento da caçula), quando ele, se dizendo desolado e preocupado, teve de se ausentar nesse momento delicado "por causa de Itaipu". Encontrou outras, de épocas posteriores, da mesma moça, com a mesma "cara de piranha". Deglutiu o soluço, enxugou a inevitável lágrima e por fim mandou doar tudo para a Associação Espírita. Guardou para si a foto.
Pensaria nela depois.