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As pizzas de Ariela

07/11/2002


Da primeira vez que vi Ariela, foi em uma hora tardia dessas noites de sextas-feiras em que chove manso e coaxam inutilmente os sapos. Ela estava com os olhos inchados e me tratou com muita indiferença. Mal abriu a porta, estendendo a mão recebeu a caixa de pizza grande (agrião, tomate seco e ricota era sua preferência invariável), e me pagou com dinheiro e gorjeta contados. Antes que pudesse agradecer, já se trancara na casa. Parti na minha moto, levando na memória uma intrigante imagem de um rosto bonito, penteado cuidadoso e maquiagem derretendo melancolicamente nas pálpebras. Nessas épocas de desemprego endêmico, tive de me conformar com esse oficio de disk-qualquer-coisa, e minha vida tem sido uma correria contra a tendência de esfriar e amolecer das pizzas. Confesso que o trabalho em escritório ou atrás de um balcão não bate com meu perfil aventureiro e, embora já sentindo uma certa perda capilar nas entradas temporais (que compenso com um atrevido rabinho de cavalo), continuo me sentindo jovem e vigoroso quando zigzagueio entre espelhos de automóveis tocando intermitentemente minha buzina. Varias semanas a fio, os pedidos de Ariela chegaram com regularidade e sua lembrança me fez disputar a entrega do pedido com meus companheiros de trabalho. Com o tempo, eles mesmos anunciavam: “Núncio, sua dama pediu a pizza”, e lá ia eu correndo até aquele bairro chique para invariavelmente ser atendido pela mesma mão me estendendo o pagamento e a generosa gorjeta. Em certas ocasiões, julguei adivinhar uma presença masculina na casa, mas confesso que nada fundamentava objetivamente minhas suspeitas. De todo modo, Ariela estava sempre muito bem vestida e arrumada, como se preparasse para sair e, embora continuasse com o sorriso triste, nunca mais a percebi chorando. O fato é que me apaixonei pelo mistério e, em conseqüência, por ela. Sou valente na moto, mas extremamente inibido com mulheres; principalmente as bonitas e que ostentam riqueza. Nessas horas bate forte minha pouca auto-estima e sinto que meus traços rudes refletem a minha pouca cultura e ausência de melhor educação. Não sei se o amor é cego ou míope, mas às vezes, ao cruzarem nossos olhares, percebia alguma coisa no ar, e lutei muito para não sucumbir às fantasias que teimavam em povoar meu caminho de volta. As sextas-feiras se tornaram o dia da expectativa, e qualquer pequena quebra na regularidade do chamado me torturavam até o ponto de quase vomitar de ansiedade. O negócio já era motivo de troça dos outros moto-boys, que faziam piada e me lembravam de minha condição para lá de modesta. Até o patrão reparando na minha completa indisposição em sair para onde quer que fosse no horário reservado a Ariela, me chamou de lado e disse: "Olha Núncio, aqui não dá para brincar de cinema e nem de novela. Se você continuar assim, vai ficar difícil".Hoje é sexta feira e chegou o pedido de Ariela. Curiosamente não é de uma pizza grande, e sim de uma brotinho. Matutei sobre o significado da quebra de padrão. Ariela estaria inapetente? Seria uma mensagem de sua solidão? Um código de disponibilidade? Com o coração a arrancar minhas costelas, fui fazer a entrega. Ela estava me esperando de porta aberta. Vestia um jeans e uma camiseta estampada. Estava mais linda que nunca. Colocou sua pizza numa mochilinha e graciosamente a vestiu nas costas. Sorrindo, nada disse e pegando-me pela mão subiu na garupa da moto, deixando espalhados no chão, os outros discos de massa, mozarela e tomates. Segurou forte minha cintura encostando a cabeça nas minhas costas enquanto eu vestia o capacete. Não sei onde me levará esta corrida, mas juro que nunca mais entregarei pizzas a ninguém que não Ariela.