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Camisas
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22/11/2001 |
Ewaldo e Júnior sempre foram bons amigos. Desde
os tempos da escola pública do bairro onde
moravam na zona sudoeste, cultivaram a proximidade,
a cumplicidade e a tolerância que fazem a amizade.
Identificaram-se um ao outro nas opiniões convergentes,
no rendimento escolar e nas preferências lúdicas.
Gostavam particularmente de futebol, e suas camisas
de meia, quando exaustas de secreções
juvenis, eram continentes de outros panos, que amarrados
se transmutavam na bola improvisada. Eram de um tempo
em que a pelota de couro era sonho distante a ser
conquistado em algum natal seguinte. Descobriram os
pequenos segredos da vida adulta nas bancas de revistas
próximos ao mercadão, quando adquiriam
ao custo de mesadas acumuladas as revistinhas lascivas
que se vendiam com o nome-código de catecismo.
Da teoria procuraram passar à ação
e juntos buscaram o ferramental que lhes abriria o
caminho para o paraíso. Da mesma forma como
se escolhe a buzina antes de possuir o carro, foram
juntos à farmácia onde eram ilustres
desconhecidos, e com a segurança dos muito
experientes compraram suas primeiras Camisas de Vênus,
que por muito tempo guardaram na carteira. Soube-se
depois que uma fora utilizada para um voleibol improvisado
no pátio da escola e que a outra quase cumpriu
sua função no prazer solitário
de uma sessão de leitura do já surrado
libreto supra-citado.
Na adolescência tardia, eram participantes da
bateria da versão local do Camisa Verde e lado
a lado desfilavam de reco-reco e bumbo no sambódromo
da periferia.
Suas vidas divergiram por alguns anos, quando Ewaldo
ingressou na faculdade de engenharia mecânica
na capital e Júnior ficou tocando a mercearia
da família. Em alguns fins-de-semana, Ewaldo
voltava à cidade, ao bairro e à inquebrantável
amizade com Júnior. Bebiam cervejas, jogavam
uma pelada e trocavam novidades. Ewaldo falava de
política estudantil, do Collor e dos descamisados.
Júnior o atualizava nas notícias da
província, nos escândalos locais e assim
regava as raízes do amigo.
O casamento do Júnior lhe impôs uma camisa
de força e este perdeu por dois anos a liberdade
de ter amigos, de jogar conversa fora e de todas as
pequenas alegrias pueris que fazem do homem o que
ele é. Ewaldo era apenas tolerado, e sua condição
celibatária era mal vista pela jovem esposinha
do Júnior. Esta esperava o bebezinho que garantiria
a definitiva maturidade do marido e o afastaria de
vez desta amizade que invejava e nunca alcançava.
A camisola e TV refletiam com insistente regularidade
a banalidade dos dias e noites que passavam. Dividido,
Júnior fazia na vida real aquilo que realizava
no gramado. Este mestre do meio de campo suavizava
as pressões de lado a lado, mas o abismo se
abria e o rancor se instalara. A amizade masculina
é pouco exigente e raramente ciumenta, entretanto
por ser racional tem dificuldade em aceitar a imposição
chantagista (quando não extorsiva) das esposas
inseguras. Assim, os amigos, mais ligados pelo passado
que pelo presente, consolidaram uma relação
artificializada pela pouca espontaneidade.
Um domingo se encontraram no clube, e foram convidados
a participar de um joguinho de cinco-vira, dez-acaba.
No sorteio, Ewaldo integrou o time de camisa azul
e Júnior seria o meio campista do time amarelo.
Pela primeira vez em três décadas estavam
em campos opostos. Uma tímida tentativa do
Júnior para mudar de time foi acolhida com
apupos e o jogo começou. E suaram a camisa
como sempre fizeram no esporte adorado. Correram e
disputaram cada bola na lealdade que se assume quando
integrados a um grupo. Deram tudo de si, e no segundo
tempo, na bola dividida, e por amor a camisa, Ewaldo
entrou de sola fraturando em três pedaços
a tíbia esquerda do amigo.
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