Fale Conosco
Associe-se
:: DEPARTAMENTOS
:: PROGRAMAÇÃO
Científica
Social/Cultural
Esportiva
Comunidade
Mural de Eventos
:: SERVIÇOS
Poupe seu tempo
Benefícios
Classimed
:: ASSOCIADO
Utilitários
Artigos
Atividades
Álbum SMCC
:: NOTÍCIAS
Da SMCC
MedicAção
Variedades
  ArtigosAlbert Zeitouni  
Camisas

22/11/2001


Ewaldo e Júnior sempre foram bons amigos. Desde os tempos da escola pública do bairro onde moravam na zona sudoeste, cultivaram a proximidade, a cumplicidade e a tolerância que fazem a amizade. Identificaram-se um ao outro nas opiniões convergentes, no rendimento escolar e nas preferências lúdicas. Gostavam particularmente de futebol, e suas camisas de meia, quando exaustas de secreções juvenis, eram continentes de outros panos, que amarrados se transmutavam na bola improvisada. Eram de um tempo em que a pelota de couro era sonho distante a ser conquistado em algum natal seguinte. Descobriram os pequenos segredos da vida adulta nas bancas de revistas próximos ao mercadão, quando adquiriam ao custo de mesadas acumuladas as revistinhas lascivas que se vendiam com o nome-código de catecismo.
Da teoria procuraram passar à ação e juntos buscaram o ferramental que lhes abriria o caminho para o paraíso. Da mesma forma como se escolhe a buzina antes de possuir o carro, foram juntos à farmácia onde eram ilustres desconhecidos, e com a segurança dos muito experientes compraram suas primeiras Camisas de Vênus, que por muito tempo guardaram na carteira. Soube-se depois que uma fora utilizada para um voleibol improvisado no pátio da escola e que a outra quase cumpriu sua função no prazer solitário de uma sessão de leitura do já surrado libreto supra-citado.
Na adolescência tardia, eram participantes da bateria da versão local do Camisa Verde e lado a lado desfilavam de reco-reco e bumbo no sambódromo da periferia.
Suas vidas divergiram por alguns anos, quando Ewaldo ingressou na faculdade de engenharia mecânica na capital e Júnior ficou tocando a mercearia da família. Em alguns fins-de-semana, Ewaldo voltava à cidade, ao bairro e à inquebrantável amizade com Júnior. Bebiam cervejas, jogavam uma pelada e trocavam novidades. Ewaldo falava de política estudantil, do Collor e dos descamisados. Júnior o atualizava nas notícias da província, nos escândalos locais e assim regava as raízes do amigo.
O casamento do Júnior lhe impôs uma camisa de força e este perdeu por dois anos a liberdade de ter amigos, de jogar conversa fora e de todas as pequenas alegrias pueris que fazem do homem o que ele é. Ewaldo era apenas tolerado, e sua condição celibatária era mal vista pela jovem esposinha do Júnior. Esta esperava o bebezinho que garantiria a definitiva maturidade do marido e o afastaria de vez desta amizade que invejava e nunca alcançava. A camisola e TV refletiam com insistente regularidade a banalidade dos dias e noites que passavam. Dividido, Júnior fazia na vida real aquilo que realizava no gramado. Este mestre do meio de campo suavizava as pressões de lado a lado, mas o abismo se abria e o rancor se instalara. A amizade masculina é pouco exigente e raramente ciumenta, entretanto por ser racional tem dificuldade em aceitar a imposição chantagista (quando não extorsiva) das esposas inseguras. Assim, os amigos, mais ligados pelo passado que pelo presente, consolidaram uma relação artificializada pela pouca espontaneidade.
Um domingo se encontraram no clube, e foram convidados a participar de um joguinho de cinco-vira, dez-acaba. No sorteio, Ewaldo integrou o time de camisa azul e Júnior seria o meio campista do time amarelo. Pela primeira vez em três décadas estavam em campos opostos. Uma tímida tentativa do Júnior para mudar de time foi acolhida com apupos e o jogo começou. E suaram a camisa como sempre fizeram no esporte adorado. Correram e disputaram cada bola na lealdade que se assume quando integrados a um grupo. Deram tudo de si, e no segundo tempo, na bola dividida, e por amor a camisa, Ewaldo entrou de sola fraturando em três pedaços a tíbia esquerda do amigo.