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Caras
insulares |
14/06/2001 |
A nossa vida não nos basta.
Com exceção dos inclinados a eremitas
e anacoretas, buscamos participar de outras existências.
O interesse pelos semelhantes nos permite a multiplicidade
de emoções e experiências. Mas,
entrincheirados pela covardia e incompetência,
não as atrevemos vivenciar. Quem já
não foi Robin Hood ? Ou Peter Pan ? Todos já
mergulhamos, página após página,
nas aventuras e desventuras dos personagens. Os menos
entusiastas à leitura, preferirão o
comodismo do sofá e sofregamente, religiosa
e candidamente acompanharão os pequenos dramas
dos Maias e Astecas. E ou se distrair com teus comentários
fúteis, àquela, que de férias
de suas funções maternais e matrimonias,
se encarna agora na bela heroína da ação
Global. Você, que stallonamente já venceu
a guerra do Vietnã, pilotou a Apollo 13, transou
com a Sharon Stone, massacrou os índios e conquistou
o deserto, sabe do que estou falando. Na vida real
(real ?), o drama dos outros sempre se apresenta banal
e o melhor assunto é você mesmo. E, mesmo
que tediosamente pretenda que tua pobre existência
seja a mais interessante de todas, você se trai.
Entre a desculpa esfarrapada e a petulância
provocativa, acaba por gastar teus inflacionados trocados
na aquisição daquelas revistas que te
projetarão na convivência dos ricos,
bonitos e poderosos. E quantas existem hoje, ostentando
em suas capas aquelas caras conhecidas dos eleitos
como o produto final e definitivo da evolução
humana.Quantas loiras ! Que mudanças do moreno
povo brasileiro ! No espaço de meia geração,
a mutação cultural as transformou (e
amanhã será tua vez) em coxudas suecas.
As fanzocas menos favorecidas, mimeticamente, enriquecem
suas raízes capilares com um tom enegrecido
muito bonito. Que trabalho que deve dar a pictorizacão
da união do cabelo com a caixa craniana !A
cada semana você acompanhará, como se
íntima fosse, a resistência heróica
da prole do sertanejo aos apelos da moderna revolução
sexual. E por falar em sertanejo - que já foi
um forte na visão Euclidiana - que transformação
!Hoje, esses seres de bizarras e galináceas
melenas, gemem, para teu deleite, a estridência
anasalada dos torneios de peão de boiadeiro.
Você casará, ficará, divorciará
e seguirá (atenta e preocupada) todas as pequenas
peraltices das pequeninas de nome chiado e suas vestes
de marca (marcas da mamãe). E como não
se emocionar no aniversário do histérico
poodle da policarbonatada emergente.Seios aumentando,
bunbuns empinando e idades encolhendo, você
acompanhará o insulto ao genótipo. Será
o convidado especial de todas as festas e conhecerá
as alternativas civilizadas ao seu feijão com
arroz e cerveja morna de apagão. E perderá
a grande aventura de tua própria vida, as graças
maravilhosas de teu companheiro, as histórias
de teus filhos e preferirá embarcar rumo à
Ilha da Fantasia. Das caras fantasias dos outros.
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