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Chewing
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28/02/2002 |
Com o Marines, aportaram naquela ilha as meias de
seda, os chocolates, os cigarros (Camel e Lucky Strike)
e a posição do missionário. Eles
trouxeram também os tabletes de goma cuja designação
soava aos ouvidos alguma coisa como chewgan . Era
uma meleca de mascar que transformava a todos em ruminantes
compulsivos e que não deixava de ter uma ação
higiênica (na falta crônica de pasta de
dentes e no excesso - também crônico-
dos supracitados Camels). A ciência de hoje
também descobriu uma qualidade suplementar
na prática em destroçar repetidamente
o que quer que seja. O destroçar compulsivo,
assim com qualquer outro comportamento repetitivo
parece aliviar a tensão. Balançar a
perna, sacudir os óculos, mexer nos cabelos
e lançar impostos são bons exemplos
(embora nesse último caso só alivie
a tensão do governo e aumente a do contribuinte-vítima).
De qualquer forma todos estimularam sua capacidade
de comunicação com a desumana necessidade
de aprender o inglês necessário naquela
invasão. Somavam-se os sotaques de cowboys
com a insistente presença do corpo estranho
que não se consumia nas bocas e que disputava
o espaço da cavidade com os fucks e shits do
limitadíssimo vocabulário.A passagem
dos fuzileiros deixou na lembrança seu hino
que já reverberava desde as terras de Montezuma
até as areias de Tripoli, uma porção
de filhos de mãe solteira surpreendentemente
bonitos e o juncado de restos pegajosos de Chewing
Gum nas poucas ruas com calçamento da capital.
O hábito de andar com os pés descalços
ou enfiados em chinelos de fibra vegetal foi substituído
pelas pesadas botinas dos mortos em ação
e pela doação “com fins humanitários”
dos excessos de produção da indústria
bélica (para falar a verdade, não há
excedente produtivo: tudo que é fabricado nesse
ramo de negócios tem mercado permanente). Assim
cristalizou-se um novo cenário urbano, onde
a química da goma se completava na borracha
dos solados que transportavam os restolhos da massa
nojenta para o interior dos lares e para os tapetes
das repartições publicas. A isso adicionou-se
um novo som no cotidiano daquele povo insular. Um
tchec- tchec amplificado marcava o passo dos invadidos.
Era só estar na rua e o ruído martelava
seu ritmo às vezes compassado e, por outras
ocasiões, assíncrono. Tchec-Tchec foi
a fonte inspiradora de um ritmo da moda na ilha por
algum tempo e se dançava nos bares e cafés,
disputando a preferência com o fox-trot e o
rock´roll. Não deixou de ter um efeito
didático o fato daquelas pessoas se darem conta
da somatória das leis gravitacionais com os
da tensão superficial a cada tentativa de levantar
o pé e se aventurar nos caminhos dos passos
da liberdade. O primeiro ato que se seguiu à
tomada do poder após a guerra pela Frente de
Libertação Popular da Ilha, foi acabar
com esse símbolo de dominação
e massacre cultural. De imediato proibiram e multaram
pesadamente a quem se atrevesse cuspir o chewgan na
rua. Depois de verificarem que a aplicação
da lei em questão representava grande fonte
de rendimento para os depauperados cofres públicos
(afinal de contas, a democracia tem um custo e os
parlamentos um alto preço), passaram os revolucionários
em questão a adotar uma política mais
realista. Assim compraram o Know-How da produção
do Chewin-Gum, e uma estatal os produziu em escala
nunca vista. Maquilharam a produção
com símbolos nacionais e determinaram que todos
os atores de novelas (e todo o resto do beautiful
people) adotasse em público e em privado a
manifestação de estarem com a boca cheia
do novo produto nacional. A clarividência desse
governo o habilitou a postular a perenidade no poder.
Havia conciliado o Orgulho Nacional, a adoção
de tecnologia de ponta, a tranqüilidade social,
promovido o emprego - e, mais importante de tudo -
mantido uma fonte permanente de recursos fiscais na
arrecadação daquelas multas que teimavam
em se multiplicar.
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