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Como os outros te vêem

07/06/2001


O mundo é feito de aparências. E se quiser a prova, vá para a praia dos mudos e calados e verifique quem faz sucesso. Despido dos sinais exteriores de riqueza e importância e impedido de exercitar o charme e a lábia que te fez famoso, o que sobrará ? Nesse ambiente de paraíso perdido, teu corpo e o uso que você faz dele serão os padrões. E lá está você, tentando inutilmente encolher os volumes e - ofegante - exibir a forma perdida na esquina da juventude e dos maus hábitos da urbe. Qualquer garoto comparará seu bronzeado às tuas pintas senis. E tua derrotada flacidez te fará mais uma vez refletir da importância daquilo que você deixou no armário e no asfalto.Sempre foi assim e em todo lugar. Só para ilustrar: nas nações dos ciúmes mórbidos, onde as mulheres não podem se atrever a exibir sequer frações dos atributos que as fariam desejáveis, as vestes são uniformes, opacas e com apenas pequenos orifícios para a necessária oxidação da hemoglobina. Como séculos de experiência acumulada as ensinaram a driblar as cadeias da castidade, disputam umas às outras com sapatos e bolsas (estas sim, visíveis). É ali que se fez a fortuna da Louis Vuitton. Nesses mundos de poeira montar em asnos não dá status. Puros sangues são melhor garantia de sucesso. As candidatas a donas de casa destes desertos carregam seus dotes materiais em pulseiras e colares. E assim se destacam das que serão derrotadas no campo de batalha enxugado dos encantos do corpo e do espírito. E o que faz mais sucesso ? Aquela acessível mãozinha sedosa e expressiva ou aquela outra de unhas cuidadas a 50 reais, coroada pelo cintilante solitário? (Como damos valor às pedras e a tudo que brilha ! Só as gralhas têm tanta atração por esses minerais). E quando você, que não foi privilegiado pelos genes ou pela época, se atrever em falar numa tal de beleza interior para mudar o campo da batalha social, observará em troca, humilhado, a desdenhosa superioridade do olhar do vencedor.Adão e Eva cobriram suas partes com bucólicas folhas de figueira. Hoje, o Jardim do Eden é outro. Sucederam-nos muitos Cains, Armanis e Valisières. Talvez ocultar seja apenas o mote para sugerir e destacar. E a vergonha acaba ficando por conta da assincronia com a moda e o luxo. Neste mundo onde acreditamos termos sido abençoados com cotas mais que suficientes de bom senso e discernimento, a exibição dos materialismos fúteis identifica nossa capacidade de endividamento. E, afinal de contas, de que serviria a riqueza senão para se promover a si própria. Entropia zero ! Excetuando as despesas com a sobrevivência, todo o resto é investido no automarketing e seus engodos. Carros potentes para condutores nem tanto. Rostos joviais de mal humorados. As rugas que nem sempre foram resultado do riso desaparecem a golpes de botóx e bisturis. Cremes, tintas, cabelos alheios, esculturas a laser e injeções quase letais de Procaína. Fala-se do camaleão e de tantos outros miméticos, mas os maiores truques são produzidos por você, ser humano com a capacidade de o tempo todo enganar seu semelhante com o aspecto daquilo que você não é. A coisa chega a tal ponto que a questão filosófica fundamental, que continua a atormentar os poucos pensadores da modernidade, continua sendo "O que sou ?". E, perdido e perplexo, você acaba se imitando a si mesmo. Como o Leão que imita o Leão, e acaba por se tornar Macaco.