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ArtigosAlbert Zeitouni
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Como os
outros te vêem |
07/06/2001 |
O mundo é feito de aparências.
E se quiser a prova, vá para a praia dos mudos
e calados e verifique quem faz sucesso. Despido dos
sinais exteriores de riqueza e importância e impedido
de exercitar o charme e a lábia que te fez famoso,
o que sobrará ? Nesse ambiente de paraíso
perdido, teu corpo e o uso que você faz dele serão
os padrões. E lá está você,
tentando inutilmente encolher os volumes e - ofegante
- exibir a forma perdida na esquina da juventude e dos
maus hábitos da urbe. Qualquer garoto comparará
seu bronzeado às tuas pintas senis. E tua derrotada
flacidez te fará mais uma vez refletir da importância
daquilo que você deixou no armário e no
asfalto.Sempre foi assim e em todo lugar. Só
para ilustrar: nas nações dos ciúmes
mórbidos, onde as mulheres não podem se
atrever a exibir sequer frações dos atributos
que as fariam desejáveis, as vestes são
uniformes, opacas e com apenas pequenos orifícios
para a necessária oxidação da hemoglobina.
Como séculos de experiência acumulada as
ensinaram a driblar as cadeias da castidade, disputam
umas às outras com sapatos e bolsas (estas sim,
visíveis). É ali que se fez a fortuna
da Louis Vuitton. Nesses mundos de poeira montar em
asnos não dá status. Puros sangues são
melhor garantia de sucesso. As candidatas a donas de
casa destes desertos carregam seus dotes materiais em
pulseiras e colares. E assim se destacam das que serão
derrotadas no campo de batalha enxugado dos encantos
do corpo e do espírito. E o que faz mais sucesso
? Aquela acessível mãozinha sedosa e expressiva
ou aquela outra de unhas cuidadas a 50 reais, coroada
pelo cintilante solitário? (Como damos valor
às pedras e a tudo que brilha ! Só as
gralhas têm tanta atração por esses
minerais). E quando você, que não foi privilegiado
pelos genes ou pela época, se atrever em falar
numa tal de beleza interior para mudar o campo da batalha
social, observará em troca, humilhado, a desdenhosa
superioridade do olhar do vencedor.Adão e Eva
cobriram suas partes com bucólicas folhas de
figueira. Hoje, o Jardim do Eden é outro. Sucederam-nos
muitos Cains, Armanis e Valisières. Talvez ocultar
seja apenas o mote para sugerir e destacar. E a vergonha
acaba ficando por conta da assincronia com a moda e
o luxo. Neste mundo onde acreditamos termos sido abençoados
com cotas mais que suficientes de bom senso e discernimento,
a exibição dos materialismos fúteis
identifica nossa capacidade de endividamento. E, afinal
de contas, de que serviria a riqueza senão para
se promover a si própria. Entropia zero ! Excetuando
as despesas com a sobrevivência, todo o resto
é investido no automarketing e seus engodos.
Carros potentes para condutores nem tanto. Rostos joviais
de mal humorados. As rugas que nem sempre foram resultado
do riso desaparecem a golpes de botóx e bisturis.
Cremes, tintas, cabelos alheios, esculturas a laser
e injeções quase letais de Procaína.
Fala-se do camaleão e de tantos outros miméticos,
mas os maiores truques são produzidos por você,
ser humano com a capacidade de o tempo todo enganar
seu semelhante com o aspecto daquilo que você
não é. A coisa chega a tal ponto que a
questão filosófica fundamental, que continua
a atormentar os poucos pensadores da modernidade, continua
sendo "O que sou ?". E, perdido e perplexo,
você acaba se imitando a si mesmo. Como o Leão
que imita o Leão, e acaba por se tornar Macaco.
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