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Danceteria
Plenaluna
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18/10/2001 |
O garçom já as conhecia, e assim não
tiveram dificuldades ao pedirem a troca da mesa que
ocupavam. Habituadas à casa, logo intuíram
que o lugar anteriormente escolhido não as
favorecia. Embora ao lado da pista de dança
e estrategicamente situada para favorecer a convergência
dos inevitáveis olhares masculinos, estariam
rodeadas de casais alegremente ruidosos. Suas proximidades
com certeza inibiriam a abordagem dos candidatos,já
que as regras não escritas determinavam o respeito
à mulher acompanhada.Transferiram-se para uma
das laterais do salão em U e se apertaram na
pequena mesa de quatro lugares onde flutuavam odores
de lingüiça frita e queijo derretido.
Pediram água com gás e rodela de limão,
dispensando o amendoim que fatalmente deixaria sua
película em algum dente. Hesitaram um pouco
na disposição das cadeiras e ficaram
no meio termo entre a visão da pista e das
outras mesas. Mesmo na penumbra agradável do
ambiente podiam distinguir nosvultos os alvos em potencial.
A experiência acumulada de mais de cinco anos
de divórcio das amigas permitia a seleção
quase instantânea de suas chances daquela sexta-feira.
Dois conjuntos se revezariam e elas sabiam de antemão
como se daria a seqüência dos ritmos.
Nos primeiros boleros, a pista já comportara
uma boa dúzia de casais que assim manifestavam
as respectivas propriedades.Tomaram nota mentalmente
das mensagens sinalizadas nos pequenos olhares e sem
tocar no assunto que as angustiava, deitaram os comentários
vazios de sentidos – porque automáticos
– que as faria parecer cúmplices e desinteressadas.Enquanto
seus lábios se mexiam, seus olhos giravam em
todos os sentidos, qual camaleão na emboscada.
Em pouco tempo, as duas se permitiram à observação
mais pragmática e deixando as defesas de lado,
comentavam o corte do vestido da moreninha, o passo
criativo do par ao lado do palco, dos seios excessivamente
siliconados daquela de amarelo e do quanto gostavam
de Nelson Gonçalves. A água já
estava morna e o conjunto atacava de Anos Sessenta.
Deixaram o pudor etílico de lado e pediram
uma Marguerita e uma batida de abacaxi com vodka.
No segundo gole, entre risos resolveram se expor na
pista e sacolejaram uma frente à outra como
o faziam na distante juventude. Foram quatro seqüências
onde puderam exibir o resultado da malhação
diária e os atributos ainda vivos debaixo dos
tecidosde algodão e crepe. Estava gostosamente
quente e abafado e transpiraram debaixo dos cabelos
e no vale dos seios. Voltando à mesa, tagarelando
excitadas,enxugaram o suor levantando as crinas na
direção dos ventiladores, e sacudiramas
laterais das blusinhas permitindo ao eventual observador
a visão do paraíso que o aguardaria.
O coração batia forte e já não
era de cansaço. A ansiedade da troca do conjunto
- que anunciava a metade da noite - as fez pedir novas
doses(desta vez de Caipiroska para ambas). Agora olhavam
mais fixamente para os ainda desacompanhados, e a
insinuação transmitida não traduzia
o grito da alma solitária.
A fantasia que semana após semana, se construía
e não se consumava,estava se substituindo pelo
familiar desespero da noite perdida, dos estertores
dos vigores desperdiçados e da vida que se
esvaziava. Quando atacaram de forró,aproximou-se
um jovem pouco saltitante que dançara muito
e com muitas, e sem hesitação a primeira
levantou-se mal contendo o sorriso para o salvador.Exultante,
semicerrou os olhos e no bater das coxas deixou que
ele a conduzisse para o Éden das sonhadoras.
A outra balançava os ombros na cadeira e foi
abordada por um senhor um pouco gordo, que lhe sugeriu
um uísque, e ela aceitou. Mais tarde ele lhe
sugeriu outras coisas, que ela em nome da vida, também
aceitou.
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