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Desejo

21/02/2002


Aproveitando a vulnerabilidade da casa no início da tarde, ela se insinuou silenciosamente para seu interior. Passou desapercebida pela cozinha onde duas panelas fumegavam o macarrão e o molho do jantar. Infiltrou-se no único quarto de dormir, ficando em dúvida entre o esconderijo que se oferecia atrás da porta e aquele debaixo da cama. Embora temesse as eventuais aranhas em suas teias de escuridão pouco faxinadas, considerou que o risco e a humilhação valeriam a pena. Ardia de desejo. Seu abdômen arfava e clamava pelo corpo que hoje pousaria exausto naquela cama. Acreditava poder sentir seus ovários famintos prontos para despejar o produto de sua natureza. Estava cansada. Cansada daquela vida difícil à beira da represa onde vivera sua juventude. Enojada de tantas aventuras com os machos sem consideração que a possuíam e logo abandonavam. Agora se sentia pronta para prosseguir no curso da vida que lhe fora determinada. Ficou imóvel e procurou observar nas frestas da colcha que cobria a cama. Percebeu o vaivém da inquilina solitária daquela casa, enquanto esta se servia do modesto jantar. A TV ligada era o pano de fundo acústico dos passos da desejada nas suas trilhas de prisão urbana. Deu-se o ritual do banho, da novela e dos suspiros de solitude. A luz acesa projetou a sombra da jovem coberta por toalha molhada. Arriscou a admirar o corpo agora nu a pentear-se frente ao espelho. Carnes magnificas, cálidas e úmidas. O leve rubor que se derretia naquela pele macia ressaltava toda a volúpia da situação prometida.Ainda não era hora. Seus instintos lhe diziam que o himeneu se daria ao amanhecer, naquela aurora do fim dos sonhos, quando no lusco-fusco da consciência se recuperando, poderiam enfim unir seus corpos femininos. Sentiu a vibração da amada no seu deitar sobre o colchão que as separava. Paciente, deixou-se tomar pela imobilidade dos que sabem esperar.Agora, as luzes da manhã se projetavam pelas paralelas das persianas e o corpo retornou aos poucos aos pródromos da consciência.Chegara a hora. Assim saiu de seu esconderijo e no maior silêncio possível que o frêmito de seus membros permitiam, passou o olhar várias vezes por sobre aquela jovem entregue aos devaneios da esperança. Escolheu cuidadosamente o fragmento de pele rosada onde deitaria o primeiro beijo. Pousou suavemente, introduzindo a seguir seu aparelho picador-sugador e logo encontrando o vaso onde corria a vida e que fecundaria seus ovos. Sorveu sofregamente o sangue da ninfa e fremiu de prazer. Levantou vôo, zunindo de satisfação, deixando para trás o vírus da Dengue tipo 1 como avalista e testemunha viva daquela posse inconsentida.