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Do outro lado

08/08/2002


"É só aguardar", disse, sem levantar os olhos, a moça atrás do balcão. Aroldo ainda tentou extrair dela um vestígio de simpatia comentando que utilizaria o número da senha por ela fornecida na dezena do jogo de bicho. Esbarrou no ricto dos lábios mimetizando um sorriso, enquanto ela atendia ao telefone anunciando robotizadamente : "Clínica de tumores Rovelli, um momento por favor", deixando o interlocutor entregue à audição do refrão de Pour Elise.Aroldo sentiu-se decepcionado e um pouco amargo. Afinal, quando preenchera a ficha de atendimento, declinara sua condição de doutor, e esperava que a titulação merecesse a consideração e quiçá uma respeitosa e diferenciada recepção. Por um momento tentou consolar-se, atribuindo ao excesso de trabalho da moça, a imperdoável distração. Não encontrando lugar para sentar, um Aroldo embaraçado procurava refúgio nos cantos da sala de espera e folhava revistas velhas com um aperto no coração. Discretamente, seus olhos como um farol, passavam pelos rostos dos outros pacientes já acomodados e não pôde deixar de manifestar um certo suspiro de alívio não reconhecendo a nenhum. Tentava racionalizar sua condição de paciente, se dizendo que afinal de contas era um mortal como qualquer outro e seu tumor na próstata nada mais era do que uma prova e uma conseqüência de sua humanidade. Entretanto, percebia sua enorme dificuldade em afastar um surpreendente sentimento de vergonha e não sabia se o associava à sua condição mórbida, à delicadeza do órgão afetado ou pela condição de ele, um médico renomado, estar ali ao lado dos que em outras circunstâncias eventualmente o endeusariam. Aos poucos, e com resignação, foi se habituando em ser mais um naquela sala, buscando as justificativas aceitáveis para os mais de noventa minutos de atraso, ao desconforto dos sofás (para quem tinha o privilégio de neles sentar), o mau humor das secretárias e o café morno. Observou, entre piedoso e repugnado, a figura esquálida de um senhor em cadeiras de rodas, soprando palavras e secreções pelo orifício da traqueotomia. A esposa ao lado limpava sua baba e sorria desconcertada para os curiosos. Aroldo experimentou um certo pânico por vislumbrar o que poderia ser seu destino e, sentindo as mãos frias e o suor perlando a fronte, tentou se distrair nas fotos dos famosos. Aroldo, experimentou a desrealização e a ruptura com o que sempre acreditara ser ele mesmo. Agora era outro quase irreconhecível, mas familiar de certa forma. Alguém que sempre soubera ser, e cujo lugar fora ocupado por aquele que a sociedade construíra. Mergulhou em reflexões que a singularidade da situação promovia e planejou o encontro com o colega que o atenderia, temendo seu profissionalismo e sua objetividade. Tentaria na descontração do primeiro instante, trazer as lembranças comuns do passado, para construir a relação do presente. Pressentiu a frieza que se seguiria e o desdém com que as futilidades seriam tratadas. Sabia, por experiência agora revivida na memória, que enfrentaria o distanciamento profissional, as estatísticas geladas e os tratamentos eficazes e desprovidos do afeto. Previu que sairia com a receita salvadora e a perplexidade dos que acreditavam em um mundo feito de afeto e solidariedade. Seria salvo, mas questionaria o sentido da vida. Sua relação com os doentes seria para sempre modificada.