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Dois Minutos
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01/11/2001 |
Josué perdeu a hora de chegar ao mundo. Por
dois minutos, epor se recusar a abandonar os confortos
da calidez do útero, contrariou apredestinação
da conjugação dos astros e perverteu
a harmonia dos ascendentes edos descendentes.
Carregou os estigmas da hipermaturação
e para sempreostentou o corpo grande, piloso e a boca
cheia de dentes. Sistematicamente ascoisas aconteciam
antes de sua presença. Engatinhava quando já
deveria andar.Balbuciava num mundo de falantes, e
passou a controlar os esfíncteres apenasdepois
da realização digestiva. Os portões
da escola se cerravam quando Josuéestava ainda
virando a esquina. Suas provas de redação
tinham de ser entreguesquando as últimas sentenças
ainda flutuavam em sua cabeça. Foi escalado
– e porpouco tempo - goleiro do time mirim de
futebol da escola em função de seutamanho
avantajado. E era espantosa a regularidade com que
seus saltos felinoseram emoldurados pela rede que
já balançava.
Vivia ansioso e apressado. Correndo atrás do
tempo irrecuperavelmenteperdido, tomou consciência
do problema na idade em que a consciência começa
ase tornar um problema. E assim abdicou ao presente,
ao instante e à ocasião quefazem os
fragmentos dos prazeres que dão sentido à
existência. Por serinteligente, antecipava as
cenas seguintes das seqüências de sua vida
eprocurava a necessária sincronia que o faria
participante presencial do mundoque fluía.
Chegava às reuniões quando estas já
tinham iniciado e se despediaabruptamente por pressentir
que o futuro compromisso também lhe fugiria.
Sofriae corria. A imagem do coelho da historia de
Alice lhe trazia a dolorosasensação
da identificação caricata com seus atormentados
comportamentos.
Foi praticante de Tai Chi Shuan e era patética
sua dessintoniacom a coreografia dos companheiro,
e sua grotesca figura balançava só muito
depois do vento terbatido. Estudou física e
a teoria da relatividade e provisoriamente acreditouter
encontrado a redenção ao descobrir que
o tempo corria de maneira diversa deacordo com atração
gravitacional e a velocidade do objeto.
E assim corria muito e todos os dias, na crença
que infinitasfrações de segundos somados
descontariam os dois minutos perdidos. Chegou a sejogar
de aviões mergulhando em vôo livre pelo
maior tempo possível antes deabrir o pára-quedas.
De fato, a teoria funcionava com relógios atômicos,
masnão para Josué.
Sempre atrasado, deixava aflitos e decepcionados aos
amigosque subitamente abandonava no meio da piada.
Sua vida conjugal passou a ser uminferno com as várias
mulheres que teve. Não aceitava sobremesa por
causa doscompromissos. Saia antes do fim do filme
para não perder o táxi. E nas noitesem
que não se esforçava para dormir mais
cedo (e que invariavelmente resultavamem insônia),
experimentava o plaisir à deux com a amada.
Entretanto, napressa de alcançar o prazer da
companheira, sistematicamente o ultrapassava, adeixando
literalmente na mão.
Não curtiu os filhos por impaciência
e estes se desenvolviampara um pai que sempre os achava
mais jovens. Esgotou a ampulheta do seu tempocom a
mente sempre voltada para um futuro inalcançável
no tempo do presente.Envelheceu e decaiu como acontece
com todos. E um dia teve de atender aoderradeiro compromisso.Nos
estertores da agonia, virou os olhos para o relógiode
carrilhão à sua frente e apressou sua
morte por temer perder o encontro coma eternidade.
Na luta deEros e Thanatos na vida de Josué,
o vencedor foi Chronos.
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