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Dois No
Toalete
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25/07/2002 |
Decididamente esse negócio
de comida mineira não fica impune. O verde
da couve, o dourado acastanhado do tutu, das costelinhas
e do torresmo acabam por se manifestar de uma forma
ou de outra. E Anita teve de pagar o preço.
Os pródromos borbulhantes dos géiseres
prenunciavam o enxofre incandescente do vulcão.
Deslizou delicadamente da cadeira alta do bar inglês
e por lá deixou a amiga , o martini e paquera
incipiente. Optara curtir o sábado noturno
no recentemente inaugurado “Café Winduck”,
que estava prosperando na pequena cidade do interior
no circuito histórico de Minas Gerais. O proprietário
apostara com acerto no bom gosto de alguns autóctones
abonados e nos bons hábitos dos turistas das
capitais. E ali, em meio ao barroco, aos uais e na
cronometragem muito peculiar das colinas, vingara
um pequeno diamante de modernismo. Anita escorregou
cuidadosamente no espaço entre o piano de cauda
e a tabacaria, segurando na última âncora
a formidável nau que adernava perigosamente,
prestes a naufragar no carpete avermelhado. Uma única
porta branca e acolchoada ostentava em letras douradas
uma indicação um tanto pretensiosa de
Toilette, encimada por um led de luz vermelha. Nenhuma
indicação de gênero, nem mesmo
figurativa, inicialmente a fizeram hesitar e por fim,
tranqüilizaram Anita. Afinal de contas , homens
que se prezam não freqüentam toaletes
e sim mui viris banheiros, sem dourados nas portas
e sem frescuras. Seu cérebro voava na dedução,
ultrapassando por frações infinitesimais
o desastre das vísceras.Entrou , batendo os
saltos no piso de cerâmica de boa qualidade,
e percebeu o aroma de limpeza e os cuidados com o
conforto e estética. Suas retinas na corrida
para a segunda das duas portas reservadas, gravaram
‘a sua esquerda a pia de latão, o sabonete
em forma de concha, as toalinhas enroladas e a pequena
vela acesa (seria canela?) .Trancou-se com a rapidez
possível , sentiu o suor começando a
borrar o rímel das pálpebras e sentou-se
em explosão de alívio e arrependimento.
Um baque surdo somou-se aos ruídos lamentáveis
da natureza em curso. A porta do lado fechava e o
deslizar do zíper denunciou a masculinidade
do vizinho. Uma Anita contorcida se continha, e suplicava
aos deuses das toaletes para passar desapercebida.
O rogo, inútil, não poderia mascarar
jamais o sulfúrico que se misturava ao desinfetante.
A cachoeira ao lado indicava a ingestão de
pelo menos meia dezena de cervejinhas Xingu (como
resistir a essa escuridão gelada, amarga e
espumosa?). Anita em pânico, recordou-se do
rapaz bonito, que sentado por perto no bar, trocava
com ela olhares de promessa por sobre o copo que sorvia
com prazer. Existem momentos em que as leis físico-químicas
do universo não podem ser contidas pelo desejo
biológico, e as lágrimas brotavam dos
olhos verdes de Anita no retumbante e meteórico
anúncio da admissão da derrota. Resistiu
à execução do ritual necessário
no ocaso dessas situações e permaneceu
marmoreada e no silêncio que suplicava por uma
fuga milagrosa. Do outro lado, um silêncio solene
se instalara. O que seria ? Respeito, curiosidade,
sadismo? Anita compreendeu que a petrificação
solidária era fruto da boa educação
do cúmplice, e que seria a mensagem para o
faz de conta de seu desejado desaparecimento. Agora
estavam aí os dois , íntimos sem o terem
desejado. Os dois esperando que o outro tome a iniciativa
em sair. Como se enfrentariam? Ela, a atriz da sonora
calamidade e ele, o espectador constrangido? Como
evitar o farfalhar da roupa, e como silenciar a água
purificadora, e como abrir a porta em tempos diferentes?
E como voltar ao martini e prosseguir no jogo da sedução?
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