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15/01/2002


Foi pura sorte ter conseguido aquele estágio. É claro que também devia se incluir uma pequena - mas decisiva- ajuda de determinada senhora que se encantara por Baltazar, e cujo esposo ainda ocupava um cargo de influencia no governo central. Agora lá estava ele em Bruxelas havia quase dois meses. Chegara no fim do outono, quando essa região assume o cinzento e a monotonia das terras baixas ao norte. Baltazar se instalara na pensão que amigos lhe indicaram quando de sua partida de Buenos Aires. Deixara para trás a família, a turma querida, a namorada e o Cerro Porteño. Deixou também nos pampas a esperança exaurida, a crise, a corrupção, o ridículo Peso fantasiado de Dólar e os Patacones. Optou por se empenhar no aprendizado da língua francesa já que o flamengo lhe parecia absolutamente impossível de articular. Teve pouquíssimas oportunidades de aferir seu desempenho lingüístico, e foram todas muito frustrantes para alguém tão verborrágico e criativo como Baltazar. Por isso teve de se submeter à ditatorial limitação gramatical que acaba por empobrecer o fluxo das idéias. O estágio não era lá essa coisa, mas o aprendizado talvez viesse a lhe abrir oportunidades mais substantivas de emprego nesse mundo globalizado. A remuneração era pouca, entretanto cobria com uma pequena folga os custos da pensão e dos pequenos momentos de lazer. Suas noites eram consumidas por passeios ao acaso pelas ruas cobertas de neve suja e jantava regularmente no pequeno restaurante a duas quadras da pensão. A comida lhe era estranha e muitas vezes Baltazar devaneou com bifes de choriço assando na moda dos gaúchos.Nesta noite de chuva finíssima, Baltazar estava em meio à multidão que se acotovelava na imensa praça de nome difícil. Entendera que não era mais possível se manter solitário, e isso seria especialmente inaceitável na véspera do Ano Novo. Por isso decidira sair e assistir às comemorações e ao show pirotécnico que se daria. Estava frio. Uma espécie de umidade penetrante que nem mesmo a grande proximidade de corpos vencia. Uma completíssima orquestra abrigada dentro de um continente de acrílico tocava peças melodiosas de ritmo triunfante. O coro magnífico, os metais e os tímpanos dominavam a execução e ocorreu a Baltazar que lembravam vagamente a batida das panelas na Plaza de Mayo e dos tambores no Monumental de Nunes. Tentou se comunicar com duas moças a seu lado, e elas riram em resposta. O povo em volta tocava pequenas cornetas e ensaiavam canções que soaram algo nostálgicas. As muitas garrafas passavam de mão em mão estabelecendo-se uma espécie de confraria cúmplice de alegria que tinha um quê de artificial. Um gigantesco painel passou a iluminar a praça com números da contagem regressiva do anúncio do novo ano. E, finalmente, ele aconteceu. A ovação se misturou ao ruído sibilante dos foguetes de todas as cores e formas explodindo maravilhosamente nos céus nublados de Bruxelas. Baltazar abraçou alguém de gênero indefinido e sentiu-se patético com a manifestação da emoção que não sentia. À sua volta pequenos grupos ensaiavam danças em roda, e os risos etílicos ampliaram a solidão de Baltazar. Acima da orquestra brilhava como galáxia dourada a marca dessa nova era de felicidade. Lá estava o símbolo do Euro, a moeda que pretendia reunir os povos. O sonho de Carlos Magno e de Napoleão. O Bezerro de Ouro em seu altar europeu. Baltazar refletiu como era curiosa e irônica a história dos povos. Sentiu o mesmo vazio angustiante da humilhação pátria ao abandonar sua própria moeda para se integrar a um mundo que não o aceitaria como igual. Sentiu-se a própria Argentina, sozinha, muda e perplexa. Resolveu telefonar para casa, e ao se afastar notou que todas as vidraças refletiam o ícone da nova fraternidade que ainda jorrava luzes.