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Foi assim,
a lâmpada apagou ... |
17/05/2001 |
... A vista escureceu, e o beijo
então se deu. ... Miltinho e seu timbre inconfundível
já nos sugeria bons usos da escuridão.
E tinha razão o seresteiro. Nestes tempos de
apagão, é necessário ver o lado
positivo das coisas. E sempre os há. Afinal
de contas, a noite teria sido feita para dormir. Pelo
menos para nós, produto evoluído do
Homo Erectus e agora alcunhado de Sapiens. O sono,
e seu estado de inconsciência, seriam um produto
da evolução. Carl Sagan, em seu Dragões
do Éden, nos ensina, que se você se manter
bem quietinho quando reina a escuridão, aumentam
suas chances de sobrevivência. Na imobilidade
da antecâmara da morte somos menos percebidos
pelas feras noctívagas. Nosso organismo produz
uma substância - a melatonina - que atua como
um relógio químico-biológico
- e nos diz a hora de nanar. Funciona muito bem, e
é até recomendada aos viajantes que
rapidamente mudam de fuso (estou me referindo a viagens
aéreas e não as de outra natureza).
Agora, tem efeitos secundários até que
interessantes. De alguma forma promoveria a libido.
Daí, os casaizinhos enamorados preferirem a
escuridão, embora tolerando uma penumbra de
vela tingida. Exceção é feita
aos atores de filmes pornôs, que têm de
se submeter ao "Luzes, Câmera, Ação".
Contrariam, em nome da seriedade profissional e da
"ação" em questão,
os conselhos da sábia melatonina.Sem a censura
da visão perfeita, todos os gatos são
pardos. As rugas são perdoadas, as crateras
do tempo ignoradas, as telengiectasias e varizes sublimadas.
Some a isto a economia na futilidade da enésima
plástica, o privilégio da palavra sussurrada
e a exploração dos outros sentidos.
Posso sugerir o tato e o olfato ?Apagões já
foram testados com estrondoso sucesso. Seus resultados
são garantidos na retrospecção.
No grande black out de New York, de uma década
atrás, resultaram exatos nove meses depois,
um boom de nascimentos. Os filhos do apagão,
que curiosamente e com grande freqüência,
eram pouco parecidos com seus papais, confirmam a
tese da simpática função acessória
das trevas.Vamos, portanto, agradecer aos nossos diligentes
governantes que nos presenteiam neste outono com uma
perspectiva de noites animadas. Ignoro a razão
por estar sendo chamados de morcegos por uma amazônica
parlamentar que preza o decoro. Presumi ser uma homenagem
aos previdentes comandantes da pátria. Só
não sei se ganharam a alcunha em função
do seu amor às eróticas trevas. Quem
sabe se por suas estridências de alta freqüência.
Talvez por serem hematófagos e preferirem ver
o mundo de cabeça para baixo. Ou com mais probabilidade,
por transmitirem uma doença: A raiva !!!
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