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15/11/2001


1- Pourboire: O garçon estava impecável. Calça preta, camisa branca, barba feita e bem penteado, vestia um avental branco que lhe cobria a frente do corpo deixando à mostra os lustrosos sapatos negros. Anotou atento o pedido e sorriu satisfeito ao perceber que sua sugestão fora aceita. Em verdade, a escolha se dera por prudência. Entrecôtes só podia ser uma carne conhecida e o casal de turistas não se arriscaria a pedir um prato cuja constituição fosse desconhecida. Afinal, a cozinha francesa é capaz de dar sabor a caramujos e sabe se lá a que bichos mais. Trouxe a comida comme il faut, e teceu comentários que sugeriam sofisticação e erudição pouco compreensíveis para a duplinha. Estes balançavam a cabeça como quem entende, e logo atacaram a bisteca, que estava realmente divina. Depois da pâtisserie e do café pediram l'addition e deixaram um generoso pourboire para não parecerem tão ignorantes. Isso lhes custou o petit dejêuner da manhã seguinte.


2-Tip: No Check in, anotou sua condição de turista desacompanhada na ficha do hotel. Relutou em deixar que lhe passassem seu cartão de crédito ainda virgem na máquina atrás do balcão e foi assaltada dos pensamentos mais pessimistas a respeito da honestidade do empáfico recepcionista. A situação piorou quando lhe pediram para deixar assinada em branco a confissão de dívida da hospedagem. O coração batia forte, tentou protestar e ensaiou um pedido de esclarecimento do procedimento, mas sentiu a fila impaciente às suas costas. Intimidada com a velocidade da operação e da metralha de recomendações do Maître D'Hotel, foi logo despachada com o mecânico sorriso que acompanha o Have a Good Day. O porter carregou sua Samsonite de rodinhas nova em folha, abriu-lhe a porta do elevador e do quarto. Entregou-lhe um cartão e por gestos lhe explicou que era uma chave. Ligou o ar-condicionado e a TV calibrando o volume. Abriu as torneiras, conferiu a água quente, e postou-se perfilado ao lado da porta com expressão enigmática. Ela procurou por troco e viu que não tinha nenhum. Abriu o maço de 20 notas de dez dólares que carregara na pochette por baixo da saia na linha da cintura e separou uma para ele. Com o coração apertado, sentiu que se violentara por timidez. E por muito tempo odiou-se por isso.


3-Bakhshish: Antes de embarcar para o Egito, fora instruído por seu amigo que lá vivera: "O Bakhshish é dado antecipadamente e não assegura nada, mas a falta dele te garante a negativa".Assim munido das notas de piastras de conservação muito variável aprendeu que isso funcionava e que as pessoas agradeciam colocando a mão direita na altura do coração inclinavam a cabeça para o lado, e de olhos fechados murmuravam Shochran. Quando da inevitável visita ao Museu, viu tudo extasiado e quis ver mais. Um setor em especial se mantinha fechado e um cartaz trilingue avisava que o mesmo estava inacessível ao público por reformas. Aproximou-se do Shawish que montava guarda ao lado da porta, e o presenteou com uma nota de 10 piastras, piscando o olho e fazendo o gesto de quem destranca a porta. Este a embolsou e sorrindo cúmplice, chamou a outro companheiro que ostentava um uniforme mais galonado, que por sua vez ouviu atento os arabescos do primeiro. Aceitou as duas notas de 20 piastras, disse "Estena showaiah" desapareceu por um corredor, voltando pouco depois e o conduziu a uma sala impregnada de fumaça doce, onde um funcionário aparentemente graduado e ostentando um belo tarbush no crânio quase calvo, exclamou completa compreensão quando percebeu a existência da nota de cinco libras entre as páginas do guia. Sorrindo amavelmente o ciceroneou pessoalmente na visita à múmia do pequeno faraó.