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Medicina
Fútil III - O Check-Up
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29/01/2003 |
Dia de check-up anual. Você
se prepara convenientemente, banho tomado, cueca nova
e na cabeça um misto de autoconfiança
e apreensão difusa e indefinida. Você
responde a um questionário, onde perguntas
nunca dantes imaginadas te fazem refletir sobre a
imensidão de sintomas desprezados e ignorados.
A enfermeira obtém de seu corpo todos os fragmentos
possíveis e sangue, muito sangue. Fios no peito,
máquinas e uma corrida na esteira de derrubar
maratonistas de exaustão. Se você é
pródigo com seu dinheiro ou com os recursos
de seu plano de saúde, talvez venha a ter direito
à ressonância magnética, exames
com radioisótopos e conhecer as maravilhas
tecnológicas da medicina moderna que fariam
inveja aos Fantásticos shows da vida exibidos
aos domingos (e que te fazem refletir sobre as promessas
de cura e imortalidade logo ali na esquina do tempo).
Mais alguns dias de euforia mesclada a agonia ansiosa,
e você poderá finalmente se beneficiar
de tratamento de doença diagnosticada precocemente
e assim salvar sua vida. Entretanto poderá
também, mesmo estando saudável, vir
a ser um dos contemplados com a dúvida de seu
médico clínico geral e que te transformará
em turista ocasional dos consultórios de especialistas
e de engenhocas que emitirão resultados multicoloridos
a engrossar seu fichário pessoal. Valeu a pena?
Deixo a você, leitor de bom senso, tirar suas
próprias conclusões. Prevenir é
melhor que remediar, e isso ninguém discute.
No âmbito da medicina, os resultados alcançados
já salvaram muitas vidas e permitiram uma qualidade
de existência nunca antes alcançada.
A prevenção primária (aquela
que se antecipa à instalação
da doença), tem por objeto remover ou neutralizar
os efeitos dos agentes de enfermidade antes de seu
ataque e para ilustrar cito o saneamento básico
e as vacinas. Outra forma de prevenção
é a que busca o diagnóstico precoce
e seqüente intervenção no individuo
nos estágios iniciais da doença. Essa
ação também tem um valor extraordinário
quando bem utilizada e constitui-se hoje no objeto
focal de uma medicina moderna e armada de tecnologia
pertinente. É aí que se inclui o check-up.
Exames de rotina em pacientes sem queixa sintomática
têm sido em alguns casos coroados de sucesso.
Vejam o exemplo do exame de colo de útero na
prevenção do câncer, os exames
do “pezinho” nos recém nascidos
(identificando fenilcetonúria e hipotireodismo),
alguns exames pré nupciais e tantos outros,
que mostraram sua eficácia e custeio social
suportável. Por outro lado como desconhecer
o fato, que na utilização de instrumental
diagnóstico onde o valor preditivo nunca é
de 100% (isto é pacientes com a doença
terem um exame positivo, ou pacientes sem a doença
apresentarem exame negativo), você pode emergir
de um check-up com várias supostas doenças
das quais não é portador. Exemplo eloqüente
- dentre centenas- destaca o valor preditivo positivo
incrivelmente baixo para as taxas de colesterol como
fator de risco para doença cardiovascular.
E não são poucos os pacientes que não
exijam, um mês após o outro, um novo
exame (sendo essa periodicidade, por si, um terrível
equivoco, até mesmo para cardiopatas). Para
ficar no feijão com arroz, o controle quase
diário e ritual da pressão arterial,
de pessoas saudáveis, cria na flutuação
normal dos níveis pressórios um terror
hipocondríaco sempre que foge um pouco aos
convencionais 12 por 8. Um outro exemplo instrutivo,
é o revelado em 1994, quando 100 voluntários
assintomáticos foram submetidos a exame de
ressonância magnético, para identificação
de hipotético adenoma ( tumor benigno) da hipófise
. Pasmem... 10% revelaram se falsamente positivos.
Traduzindo: dez pessoas saudáveis em cem, na
hipótese de intempestividade acrítica,
correriam o risco de uma neurocirurgia, com todos
seus perigos, estando sadios. A literatura médica
está repleta de situações análogas
e o bom profissional as conhecendo, deve dividir sua
perplexidade com o paciente, buscando sempre que possível
um consenso nas decisões. Isto tudo dentro
de um clima de confiança mútua e humildade
frente às duvidas. Pacientes pouco esclarecidos
ou intolerantes, que sacodem ameaças de processo,
acabarão por se tratar com médicos acovardados,
que na dúvida, sacrificarão seu conhecimento
em favor da tranqüilidade. E todos pagaremos
a conta. Nos Estados Unidos e outros países,
isso arruinou o sistema de administração
da saúde e sabotou de vez a convergência
de interesses que sempre representou o pilar da boa
relação médico-paciente.
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