Fale Conosco
Associe-se
:: DEPARTAMENTOS
:: PROGRAMAÇÃO
Científica
Social/Cultural
Esportiva
Comunidade
Mural de Eventos
:: SERVIÇOS
Poupe seu tempo
Benefícios
Classimed
:: ASSOCIADO
Utilitários
Artigos
Atividades
Álbum SMCC
:: NOTÍCIAS
Da SMCC
MedicAção
Variedades
  ArtigosAlbert Zeitouni  
Medicina Fútil III - O Check-Up

29/01/2003


Dia de check-up anual. Você se prepara convenientemente, banho tomado, cueca nova e na cabeça um misto de autoconfiança e apreensão difusa e indefinida. Você responde a um questionário, onde perguntas nunca dantes imaginadas te fazem refletir sobre a imensidão de sintomas desprezados e ignorados. A enfermeira obtém de seu corpo todos os fragmentos possíveis e sangue, muito sangue. Fios no peito, máquinas e uma corrida na esteira de derrubar maratonistas de exaustão. Se você é pródigo com seu dinheiro ou com os recursos de seu plano de saúde, talvez venha a ter direito à ressonância magnética, exames com radioisótopos e conhecer as maravilhas tecnológicas da medicina moderna que fariam inveja aos Fantásticos shows da vida exibidos aos domingos (e que te fazem refletir sobre as promessas de cura e imortalidade logo ali na esquina do tempo). Mais alguns dias de euforia mesclada a agonia ansiosa, e você poderá finalmente se beneficiar de tratamento de doença diagnosticada precocemente e assim salvar sua vida. Entretanto poderá também, mesmo estando saudável, vir a ser um dos contemplados com a dúvida de seu médico clínico geral e que te transformará em turista ocasional dos consultórios de especialistas e de engenhocas que emitirão resultados multicoloridos a engrossar seu fichário pessoal. Valeu a pena? Deixo a você, leitor de bom senso, tirar suas próprias conclusões. Prevenir é melhor que remediar, e isso ninguém discute. No âmbito da medicina, os resultados alcançados já salvaram muitas vidas e permitiram uma qualidade de existência nunca antes alcançada. A prevenção primária (aquela que se antecipa à instalação da doença), tem por objeto remover ou neutralizar os efeitos dos agentes de enfermidade antes de seu ataque e para ilustrar cito o saneamento básico e as vacinas. Outra forma de prevenção é a que busca o diagnóstico precoce e seqüente intervenção no individuo nos estágios iniciais da doença. Essa ação também tem um valor extraordinário quando bem utilizada e constitui-se hoje no objeto focal de uma medicina moderna e armada de tecnologia pertinente. É aí que se inclui o check-up. Exames de rotina em pacientes sem queixa sintomática têm sido em alguns casos coroados de sucesso. Vejam o exemplo do exame de colo de útero na prevenção do câncer, os exames do “pezinho” nos recém nascidos (identificando fenilcetonúria e hipotireodismo), alguns exames pré nupciais e tantos outros, que mostraram sua eficácia e custeio social suportável. Por outro lado como desconhecer o fato, que na utilização de instrumental diagnóstico onde o valor preditivo nunca é de 100% (isto é pacientes com a doença terem um exame positivo, ou pacientes sem a doença apresentarem exame negativo), você pode emergir de um check-up com várias supostas doenças das quais não é portador. Exemplo eloqüente - dentre centenas- destaca o valor preditivo positivo incrivelmente baixo para as taxas de colesterol como fator de risco para doença cardiovascular. E não são poucos os pacientes que não exijam, um mês após o outro, um novo exame (sendo essa periodicidade, por si, um terrível equivoco, até mesmo para cardiopatas). Para ficar no feijão com arroz, o controle quase diário e ritual da pressão arterial, de pessoas saudáveis, cria na flutuação normal dos níveis pressórios um terror hipocondríaco sempre que foge um pouco aos convencionais 12 por 8. Um outro exemplo instrutivo, é o revelado em 1994, quando 100 voluntários assintomáticos foram submetidos a exame de ressonância magnético, para identificação de hipotético adenoma ( tumor benigno) da hipófise . Pasmem... 10% revelaram se falsamente positivos. Traduzindo: dez pessoas saudáveis em cem, na hipótese de intempestividade acrítica, correriam o risco de uma neurocirurgia, com todos seus perigos, estando sadios. A literatura médica está repleta de situações análogas e o bom profissional as conhecendo, deve dividir sua perplexidade com o paciente, buscando sempre que possível um consenso nas decisões. Isto tudo dentro de um clima de confiança mútua e humildade frente às duvidas. Pacientes pouco esclarecidos ou intolerantes, que sacodem ameaças de processo, acabarão por se tratar com médicos acovardados, que na dúvida, sacrificarão seu conhecimento em favor da tranqüilidade. E todos pagaremos a conta. Nos Estados Unidos e outros países, isso arruinou o sistema de administração da saúde e sabotou de vez a convergência de interesses que sempre representou o pilar da boa relação médico-paciente.