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Medicina
Fútil IV - Medicamentos |
06/02/2003 |
A apoteose de uma consulta médica
é o momento glorioso em que o médico
ajeita os óculos e passa no papel a formulação
mágica que aliviará dores e sofrimento,
regulará funções vitais, desentupirá
vasos e brônquios, apagará incêndios
gástricos e interromperá alguns lamentáveis
vazamentos. Mais que isso, ressussitará a necessária
potencia sexual para a harmonia conjugal, derrotará
a depressão que imobiliza e retira a alegria
da vida, eliminará as gorduras que insistem
em serem carregadas nas dobras mais inconvenientes.
E também destruirá vermes, bactérias,
fungos, vírus e tudo que se mexe invadindo
nosso corpo sagrado. Resolverá os problemas
criados por fluxo menstrual, concepção,
decadência hormonal, acne e hirsutismo. Alguém
ainda acredita que pode sair de uma consulta médica
sem a coroação da receita? Isso é,
quase sempre, inimaginável para o médico
e seu paciente. A sensação de que alguma
coisa faltou se fará inevitável, e em
muitos casos uma indicação de vitaminas
atenuará o mal estar do ato incompleto. Os
medicamentos fazem parte de nossa vida, principalmente
a partir da segunda metade do século XX. E
continuarão solidamente instalados em nossa
cultura até a inevitável substituição
pela engenharia genética. Os benefícios
são inegáveis e por vezes se assemelham
a pequenos milagres. A indústria farmacêutica,
como um todo, movimenta anualmente 350 bilhões
de dólares e está crescendo a uma taxa
de 14%. Como seu progresso está intrinsecamente
ligado à produção de fármacos
cada vez mais específicos e potentes, cerca
de 20% dos lucros são revertidos em pesquisas.
É o setor da economia que mais aplica em estudos
e desenvolvimento de novos produtos. Os custos de
fabricação de um remédio aumentaram
250% na última década, e isso também
se deve à maior rigidez dos órgãos
de controle de medicamentos.Mas, ainda assim, até
que ponto são seguros e eficazes? Antes de
tudo, quero afirmar que não existem medicamentos
que não tenham o potencial de provocar efeitos
colaterais. E muitos destes serão às
vezes mais desconfortáveis que a própria
doença. Para os hipocondríacos, isso
tem se transformado em fonte de extrema angustia,
já que espremidos pela sensação
de doença grave e o medo que brota da leitura
interminável da bula, acabam por gotejar suores
e perplexidades. E aí vai a primeira lição:
o médico deve auxiliar o paciente a reconhecer
os possíveis efeitos adversos e o orientar
a respeito de contra-indicações. Mas,
isso feito, quem assumirá a responsabilidade
pelo eventual desenvolvimento de efeitos colaterais?
Os produtores de medicamentos se protegem “avisando”.
Para ilustrar uma situação objetiva,
notem que nas bulas está indicado (desde o
lamentável exemplo da talidomida) que a administração
a gestantes e lactentes tem de ser muito cautelosa
que devem se informar com seu médico. Pronto,
já têm quem entregar aos leões.
A pergunta que se faz é: Frente a esse aviso
que encerra uma espécie de “Eu não
disse?”, como proceder? É claro que tudo
vai bem enquanto está bem e que o bom senso
e a adequada relação médico-paciente
removerão parte desse problema. Mas, e mais
importante, o perigo implícito e pouco explicado,
fará o médico, sua paciente e seus familiares
refletirem melhor a respeito da real necessidade em
se medicar. E é surpreendente verificar o extraordinário
valor terapêutico do tempo. Esperar e observar
calma e atentamente são uma arte difícil
de exercitar. Nesses tempos de processos cíveis,
criminais e éticos intempestivos pode ser muito
imprudente. Não agir acaba por se tornar mais
grave do que ser excessivamente precipitado e atuante.
Essa interferência, em não poucas ocasiões,
violentou o saber ponderado dos que nos ensinaram
que antes de tudo não devemos promover prejuízos
( Primum non nocere) . Nos próximos seguimentos
procurarei ilustrar nesta coluna exemplos de como
a precipitação terapêutica na
área da medicação, provou ser
pior que a paciência, a correta informação
e o diálogo instrutivo com o paciente. Falaremos
de gerações e mais gerações
de antibióticos perdendo eficiência e
cada vez mais caros, de substancias tidos como maravilhosas
sendo retirados a toque de caixa do mercado, de remédios
inócuos e de terapêuticas adotadas por
milhões sendo desmentidas e desativadas em
menos de uma década. E mais que tudo, do papel
que todos podemos exercer no aproveitamento ponderado
dos produtos da ciência comprometida com o homem.
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