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Na Cabine
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06/09/2001 |
A vibração dos motores se transmitia
por todas as paredes e mobiliário e morriam
amortecidos pelo travesseiro nos seus ouvidos. Ela
já se habituara àquele som de baixa
freqüência, surdo e forte como de um transformador
elétrico. Agora vinha misturado a pancadas
rítmicas, toque de metais fragmentos de vozes
e gritinhos excitados. A festa corria solta nos salões
duas pontes acima de sua cabine. Observou desconsolada
as cascas da maçã e tentou mastigar
uma bolacha água e sal com a ajuda de golinhos
de chá morno. Evitou olhar para a referência
da escotilha cujo oscilar agravava o enjôo,
mas como poderia desconhecer seu único luxo
na cabine espartana. Além do mais lhe custara
trezentos e cinqüenta dólares extras,
e uma dívida de gratidão com as economias
da irmã.
Recordou confusamente da seqüência que
transformara em realidade o sonho de tantos anos.
Desde a morte prematura de Antonio José, se
dedicara às duas filhas até que se casassem.
A única irmã estava metida em um casamento
infeliz com um mau caráter que partia para
a violência depois da segunda ou terceira dose
de Vermouth. Da solidão à tristeza foi
um passo. Aos poucos passou a freqüentar reuniões
de senhoras filantrópicas, daí passou
às caminhadas regulares e chegou à Yoga
como uma flor de lótus renascida. Novas amizades,
novas cores no cabelo e os collants que davam uma
certa sedução ao corpo que resistia.
Tinha casa própria, a aposentadoria do falecido
e um reforço eventual no orçamento no
preparo de comida congelada para a vizinhança.
Agora Aninha era sua melhor amiga e confidente. Também
viúva, conservava um certo frescor e atrevimento.
Sua companhia a encorajou e não foi surpresa
para Aninha ouvir os desejos quentes e úmidos
como miolo de pão da amiga. E entre risos sufocados
das tontices de fim de tarde, revelou também
seu sonho de participar de um cruzeiro marítimo.
Disse que se influenciara por um antigo seriado da
TV (O Barco do Amor ou coisa assim), mas que sua condição
financeira e a rigidez de formação do
Antonio José jamais permitiram concretizar.
Daí a idéia surgira, tomou forma e se
fez vida. Muitos stogonoffs, frangos com catupiry
e empadinhas se transformaram na prestação
dolarizada dos bilhetes. E foram quase dois anos de
devaneios. Eram de mares serenos, crepúsculos
intermináveis, sedução nos salões
, e príncipe encantado de cabelos grisalhos
e boa condição. E criava romance noite
após noite. Dava opção às
fantasias quando o corpo pedia e então hospedava
no pensamento camareiros italianos de sotaque profundo
que invadiam por todas as portas a intimidade de suas
cinco décadas. E assim foi até o tão
ansiado embarque. Antes da partida já repara
que os camareiros eram venezuelanos ou costa-riquenhos.
Morenos e baixos, falavam um dialeto que ofendia seus
ouvidos, mas não dera importância. Tinha
reserva de sonhos naquele trasantlântico. Aninha
(toda serelepe) e ela repartiram os beliches da cabine
com escotilha da ponte C. Arrumaram suas coisas no
pequeno armário enquanto discutiam alegremente
a divisão em turnos das grandes aventuras que
certamente ocupariam suas jornadas. De boné
e óculos escuros correram para os tombadilhos
e acenaram suas despedidas para a multidão
no cais. O barco atravessou a barra e começou
o balanço.
Com ele se manifestaram a cinetose, o enjôo
, os vômitos e os vexames. Ela não os
superou, e agora estava reclusa na cabine. De novo
só, em meio às maçãs,
aos chás mornos e ao cheiro acre do que restava
de sua bile. O médico de bordo a entupira de
Dramin B6. Aninha se evaporara após um dia
e meio de solidariedade e agora desfilava para cima
e para baixo com um gordo e simpático participante
de uma convenção de dentistas a bordo.
O porto mais próximo estava a três dias
de viagem. Colocou mais um adesivo de escopolamina
atrás do ouvido, e cobriu a cabeça.
Tentaria dormir.
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