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O Associado |
28/03/2002 |
O dia da troca da placa foi para
o jovem advogado muito especial. Elaborada em latão
dourado harmonizou-se perfeitamente com o estilo do
casarão no bairro ainda residencial da rua
tranqüila e arborizada com acácias amarelas.
Gravada muito sobriamente substitui a antiga designação
da sede do “Escritório de Advocacia Quintella
e Filhos”. Acompanhou cada volta do parafuso
que fixava a indicação do que agora
passava a ser o “Quintella e Ferruccio Associados”,
com um sorriso de muitos dentes e um rubor quase feminino
nas bochechas. Ali estava ele, grafado em condições
de igualdade com o atual depositário da grande
tradição de bacharéis e juristas
que remontava às primeiras sesmarias. Aluno
brilhante, Nardino Ferruccio sempre provocara a admiração
de seus mestres por sua inteligência, dedicação
e afabilidade. Além disso tinha amarrada ao
desejo de vencer, a capacidade quase intuitiva na
condução das decisões acertadas.
É verdade que claudicava na escolha dos ternos
(invariavelmente pareciam talhados um pouco maiores
que seu manequim), na escolha dos pratos nos almoços
de negócio e insistia no uso de um relógio
de pulso digital com barômetro. Por mais que
se esforçasse na assimilação
dos costumes dos bem-nascidos, denunciava sua origem
pouco ilustre nos pequenos indícios que escapavam
ao controle voluntário. Para começar,
o próprio nome da família Ferruccio
se perdia no emaranhado de poucos registros da multidão
dos homens sem história e sem futuro que são
a representação da vida. Seu sotaque
de modulações mediterrâneas acompanhava
certas construções verbais no mínimo
muito curiosas, as quais denunciavam a ligação
com a terra , com o arado e a emigração.Dr.
Quintella, homem estulto, logo percebera o talento
do aluno, que de estagiário pobremente remunerado
passou a tornar-se imprescindível em menos
de cinco ou seis anos. Ficou evidenciado que o Quintella
e Filhos desapareceria aos poucos não fosse
a injeção de sangue novo, e assim ,
Nardino Ferruccio elevou-se à condição
de insubstituível. Graças a Nardino,
Dr. Quintella pôde continuar freqüentando
o grand-monde e as colunas sociais da província.
Hesitava sempre na hora de se ver acompanhado pelo
auxiliar e surpreendeu-se mais de uma vez envergonhado
por estar em sua companhia. Quando inevitável,
se fazia acompanhar por Nardino, e com a arte que
as muitas gerações de pretensiosos ensinam,
conseguia deixar bem claro que na relação
de dependência associativa, o nome Quintella
pesava mais que o trabalho dos ferruccios. Não
pensem que fosse rude ou grosseiro. Nada disso. Educadíssimo,
Dr. Quintella emitia os pequenos e definitivos sinais
de dominação, que logo eram compreendidos
e assimilados por seus semelhantes. A atitude geral
em relação ao Nardino, era de consideração
nascida da generosidade dos cúmplices na superioridade.
Nardino Ferruccio tolerava os tratamentos excessivamente
familiares do antigo mestre, e submetia-se calado
aos pequenos pedidos (quase sempre públicos)
designativos da subordinação. Coisas
do tipo : “Nardino, me faça a gentileza
de puxar essa cadeira para esse lado” ou “
Nardino, por favor segure essa maleta “, ou
ainda o matador: “ Esse é o Nardino,
meu aluno mais brilhante, está conosco no escritório”
.O tempo passando, fez também passar o temor
dos que foram explorados por gerações,
e Nardino Ferruccio, que há muito havia se
dado conta da sua importância e insubstituibilidade,
resolveu vencer sua timidez atávica. Exigiu
a Sociedade, a placa de latão dourado e arrematou
com o definitivo: “Dr. Quintella, para o senhor
e para os seus amigos de hoje em diante , eu não
serei mais Nardino, por favor me chame de Dr. Ferruccio”.
Dr. Quintella pressentiu a rebelião, recontou
mentalmente seus custos , e logo concordou: “Está
certíssimo Nardino, você será
Dr. Ferruccio”.
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