 |
O Novelo
|
29/11/2001 |
Dona Laura faz anos hoje. Sentada em frente à
TV, espera o telefone tocar. Sabe que não será
esquecida. Em outras ocasiões seu aniversário
passou em branco. Mas eram outros tempos. Agora, sua
idade avançada (75 anos) não permite
a omissão dos filhos e poucos parentes que
restam. Como poderá ser o último, não
haverá como consertar, e os distraídos
deverão para sempre carregar a culpa e fermentar
o remorso de quem priva aos outros de sua alegria
final e banal. Não se deu ao trabalho de tentar
entender as idiotices articuladas por uma boca muito
pintada da excessivamente loira na telinha. Tentou
se concentrar arrumando a cesta de tricô e pensativa
enrolou a lã em uma esfera que pretendia perfeita.
A cada revolução, preenchia uma parcela
do tempo em que esvaziara sua vida. Nascera um ano
mais jovem que todos os chineses de sua idade, que
aparecem ao mundo com um ano completo. A sapiência
dos orientais os aliviou de ter que raciocinar com
o zero logo de cara. Além do que, prestigiaram
e festejaram a vida intra-uterina como integrante
do mundo exterior às vísceras.
Na pequenina bola que se formava, viria o modelo geométrico
que pretendia e caprichou na seqüência
rotativa que seus dedos um pouco trêmulos emprestavam
ao movimento. A primeira comemoração
de aniversariante de que se lembrava - e não
sabia se outras houvera - foi determinada pela recordação
da bonequinha de pano que por tanto tempo carregara,
e cujos cabelos sabiam à lã que agora
acariciava. A recordação seguinte que
resgatava, era de uma festa bem concorrida e animada
quando o pique-pique incluiu seu nome ao de duas colegas
da escola primária.
O telefone continuava mudo, e a loirinha insensata
deu lugar ao anódino apresentador com as preocupações
do dia. Dona Laura teve a impressão de já
ter assistido a esse noticiário inúmeras
vezes e adivinhava quase sempre com acerto o desfecho
de cada bloco. A esfera, agora com tamanho de um limão
Taiti, a remeteu para os gloriosos primeiros anos
de casamento. Não fora esquecida uma vez sequer
nos tempos que antecederam o nascimento do primeiro
dos cinco filhos. Dali em diante, lhe coubera lembrar
e fazer lembrar da alegria anualmente renovada da
presença daqueles que amara e amava.
Dona Laura se habituara a pensar, e embora pouco instruída,
se permitia à tentativa de sapiência
humana e refletia sobre os mistérios do tempo.
A pequena bola onde enrolava sua vida a fez meditar
que a vida era como um longo trem passando à
sua frente, um vagão após o outro, marcando
com suas rodas de ferro a batida do relógio
da existência. Por um momento intuiu que talvez
a coisa se desse ao contrário e que ela estaria
desde sempre no trem da eternidade, e da janela observaria
o desenvolvimento de sua própria historia.
Dona Laura se habituara à solidão e
ao tédio, e deixava passar o tempo como no
mundo maravilhoso do passado longínquo. A esfera
do tamanho de uma laranja em suas mãos prenunciava
o inevitável fim de linha, e ela sorriu com
o trocadilho da lã com sua metáfora.
Instintivamente, reduziu a velocidade da rotação,
prolongando assim a agonia. O fio sendo finito se
arrastaria na lentidão infinita. Só
a imobilidade garantiria a eternidade. Mas imobilidade
é também morte argumentou mentalmente,
e voltou à embolação.
O novelo estava quase completado, quando a campainha
do telefone tocou estridente. O coração
de dona Laura pulou, o novelo caiu e se desfez. Teria
de ser enrolado outra vez. Aos 76.
|