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O Olhar De Yasmina

08/11/2001


Yasmina era de uma beleza misteriosa, seu cheiro lembrava o ar dos Bálcãs, e sua silhueta era deslizante como as fronteiras de sua terra natal. Era solteira e para todos isso era incompreensível. Objeto do desejo de muitos, permanecia intocada, e já fora vista algumas vezes enxugando as furtivas lágrimas da frustração.
Na festa de encerramento do curso de Literatura, foi apresentada ao noivo de sua colega Amira. Esta lhe confidenciou que o casamento se daria em poucas semanas, e Yasmina sentiu mais uma vez a sempre reprimida inveja com a felicidade dos outros. Disse muito prazer, desejou felicidades, olhou fortemente para ele com seus olhos de bruma verde e comentou "Que belo marido te foi presenteado". Dona Zoraida, que sempre acompanhava a filha posando de avalista e guardiã de sua pureza, reprimiu a inquietude e reservou para depois os comentários que a angustiavam. Num canto, Yasmina ouvia de Amira as pequenas confidências que as inexperientes se fazem. Soube o quanto o noivo era bondoso, da fortuna de sua família, do amor que lhe dedicava e até de como era atlético e do quanto seria viril.
Na mesma noite, Dona Zoraida se acocorou junto à filha e desabafou que sentia que Yasmina lhe havia lançado um mau olhado. Esta superstição é antiga e espalhada pelo mundo, embora não universal. Parece ter surgido na Suméria. O tema já era tratado por Lao-Tse, que viveu há mais de 350 anos antes de Cristo e por Confúcio, ambos na China. Suas motivações originais são obscuras, mas pode ter a sua raiz no medo de estranhos ou outras preocupações sociais e num simples raciocínio post hoc; ou seja, um estranho passa pela localidade, e mais tarde uma criança adoece ou a colheita se perde. Vários rituais se produziram para contrabalançar os efeitos do mau olhado, como cuspir ou sujar uma criança que dele foi objeto, evitar o olhar de estranhos, recitar certas palavras da Bíblia ou do Corão, etc. A crença se mantém forte nas zonas do Mediterrâneo e do Mar Egeu, onde amuletos e talismãs são vendidos como proteção. Na Sicília e no sul da Itália acredita-se que algumas pessoas (os Jettatore) são malévolas e deliberadamente lançam o mau olhado sobre as suas vítimas Alguns etnólogos acreditam que a crença no mau olhado se enraíza na biologia primária (dominância e submissão são manifestadas fixando ou desviando os olhos e estariam relacionadas com o nosso desconforto quando insistentes). O mau olhado é conhecido como Ayin Horeh em Hebraico; Ayin Harsha em Árabe, Droch Shuil na Escócia, Mauvais Oeil na França, Böse Blick na Alemanha, Mal Occhio na Itália e era conhecido como Oculus Malus pelos antigos Romanos.
Dona Zoraida acendeu os carvões e os cobriu de incensos, resinas e especiarias, defumou a casa, os sapatos e o corpo de Amira, espalhou sal grosso pelo quarto e colocou um pingente de prata com o desenho de uma mão com uma pedra azul na correntinha da filha. Aconselhou-a a ser mais discreta e não mais contar vantagens para não atrair a inveja e rezou para que Amira fosse protegida por seus anjos. Amira se casou no mês seguinte. A cerimônia foi linda e os presentes expressivos. Entretanto, passaram se muitos dias para que se consumasse o himeneu. Nessas noites de vergonha e pudor não lhe saia da cabeça o olhar de Yasmina.