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O Público
e a Privada
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26/07/2001 |
Houve um tempo em que os cidadãos romanos se
reuniam às primeiras horas da manhã
e nas concavidades de dois marmóreos semicírculos
definiam os destinos de sua gloriosa nação.
Seguramente não queriam passar por idiotas
- no sentido que os gregos emprestavam ao termo, e
para quem não sabe designava àqueles
que estavam fechados em seu próprio mundo sem
participar da vida pública. Hoje, idiota tem
uma conotação ainda pejorativa, porém
apontando para a deficiência mental. Pois é,
os mestres do pensamento e os pais da democracia tinham
em baixíssimo conceito os alienados (termo
adaptado pelos sacerdotes de Michel Foucault para
a insanidade mental). As coisas mudam e, no presente,
o mundo político está bem povoado tanto
de uma categoria como de outra. Mas o que queria comentar
era a arquitetura dessas estruturas de pedra em semicírculo.
Resistiram aos séculos e podem ser vistas pelos
turistas de três reais por dólar e por
seus gloriosos presidentes da república.Res-publica
como é do conhecimento de todos é o
gado do povo, a coisa de propriedade coletiva. Que
ironia. Os gloriosos condutores do melancólico
rebanho nacional nos representando na terra de Tibério,
Calígula e Nero !Voltando mais uma vez às
nossas construções em mármore,
notam-se que são construídas para receber
dúzia e meia de adiposas nádegas cidadãs
e são permeados por buracos de cerca de 15
cm de diâmetro (presume-se serem mais do que
suficiente para conectar os intestinos senatoriais
à criação romana dos esgotos).
E ali se conversava na intimidade do alívio
digestivo.Definiam-se os destinos do povo e do império.
Assim mesmo. Sem pudores hipócritas, completavam
a indispensável função da transformação
do alimento no fertilizante das idéias. Para
os ingênuos que se escandalizam com a polaridade
antipódica do processo, quero lembrar que ainda
neste século, o grande Pittigrili - antes de
enfrentar seu processo de excomunhão - defendia
a idéia exatamente oposta. O novelista creditava
ao ato de destruir e deglutir após o massacre
dos molares e das enzimas, os nacos de animais e pedaços
sórdidos de vegetais uma obscenidade maior
(prática que deveria se dar em completa reclusão
e isolamento). Na mesma privacidade que hoje se busca
em todos os lares da burguesia que não questiona,
e onde a riqueza se traduz pelo número de conexões
à gloriosa rede de esgotos. Os tempos mudam
e com eles os conceitos, como vocês verificaram
na questão dos idiotas e alienados. Entretanto,alguns
hábitos resistem , adaptados e com outras roupagens
e higienizacões. Ainda hoje em torno de tantas
mesas, tantos semicírculos de poltronas (sem
buracos) permanecem dispostos para definir o futuro
das nações ! Quantos G8s se reúnem
para contrariar a natureza - que começa por
cima e termina por baixo - e evacuam suas hipocrisias
para os que julgam idiotas e alienados ! Pois é,
neste planeta maltratado a ser sufocado em breve por
egoísmo dos que se agarram ao seu way of life,
nada é mais verdadeiro que o mote popular :
"As moscas mudam , mas a m.... continua a mesma".
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