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O bacalhau

21/03/2002


Dona Santina hesitava, e seus olhos moviam-se de um lado para o outro na gôndola dos bacalhaus. Lá estavam eles , magníficos, solenes e salgados. Eram carne só; sem os apêndices que indicariam terem pertencido a um ser vivo com preocupações próprias dos habitantes dos oceanos gelados. Sem a cauda e sem a cabeça, eram só alimento. Dobrados para exibir um falso lombo gordo e plastificados no filme transparente, prometiam os prazeres que a cocção promoveria.De um lado os excepcionais bacalhaus do Porto; e na outra extremidade seus primos pobres da Noruega. E os preços correspondiam à qualidade. Dona Santina reexaminou seu magro orçamento condensado em muitas notas dobradas na carteirinha de duplo fecho. As contou e recontou , somou as moedas da condução e verificou por fim que teria de ser norueguês o peixe da Páscoa. Projetou mentalmente o aspecto daquelas postas mergulhadas no azeite dourado a exibir a superfície levemente tostada a sobressair entre os ovos, legumes e batatas cortadas em pedaços grandes. Pressentiu o aroma do vapor da travessa quentíssima a ser retirada do forno, e lamentou a receita desperdiçada no excesso de espinhos e na magreza do produto mais barato. Resignada, pôs se a palpar os volumes, tentando adivinhar onde o engodo do embrulho e das dobras teria menos sucesso. Na operação, despregou-se parcialmente a etiqueta com o código de barras onde estava aposto o preço e o peso. Surpreendeu-se ao se ver tomada de súbito impulso e passando para o outro lado da barraquinha , verificar se outra etiqueta (desta vez do peixe nobre) se descolaria. A taquicardia e os suores que corriam no seu peito magro antecipavam a tentação do ato ilícito. Como um zumbi retirou com os dedos trêmulos a etiqueta de uma porção divina do melhor bacalhau do mundo e suas pernas bamboleantes a levaram de uma extremidade a outra para completar a operação. Foi esperta e nada levou, mas deixou o pacote adulterado estrategicamente oculto sob a pilha e se foi até a prateleira dos azeites , onde levou um litro de um enganoso “Puro de oliveira” (dona Santina não sabia que esses nada têm de puro, sendo na verdade uma mistura de vários óleos de diferentes e consecutivas prensas). Passou como quem não quer nada, pela gôndola de bacalhau e lançou um olhar furtivo para seu objeto de desejo. Ele lá continuava, presente e cúmplice , como a lhe dizer que o levasse sem medo. Rodeou pelo supermercado até que as pernas não mais suportassem, e embora sua consciência lhe dissesse estar sendo observada - e quem sabe filmada - a outra voz (aquela pequenina e insistente do pecado permitido) a tranqüilizava e sussurrava que deixasse de ser boba. Na maior velocidade possível e com uma determinação de fazer inveja a políticos milionários, passou a mão no pacote de quilo e meio e como um bólido se lançou às filas dos caixas. Ali, uma nova agonia. Fechou a cara tentando desestimular a conversa com quem quer que fosse (poderia se tratar de bisbilhoteiro querendo comparar compras e preços se espantando com o que constava na etiqueta trocada). Muitas extra sístoles acompanharam o martelar da caixa registradora . E se essa moça desconfiar do preço e chamar o gerente para conferir? E se a etiqueta se despregar? E se isso ou se aquilo? Tomou o ônibus e foi para casa, entre satisfeita e se sentindo muito mal. Não faltaram nos dias seguintes os habituais embates da consciência. Por um lado a noção do certo e por outro lado a argumentação do “ todo mundo faz”. E assim , e por muito tempo, mesmo depois da Páscoa, Dona Santina se viu perplexa e com a sensação de estar dividida da mesma forma que os bacalhaus nos lados opostos da gôndola.