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O companheiro
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18/07/2001 |
O sono ia e vinha. Ora semi desperta,
ora semi desacordada, só conseguia pensar nele.
Era como se em todo o conteúdo da caixa craniana
houvesse continente apenas para ele. Seu mestre e
seu objeto de desejo. No primeiro despertar, ao sobressalto
de quem volta sabe-se lá de onde, ainda se
distinguia o ruído da TV do apartamento vizinho.
Ainda assim, alcançou as últimas névoas
do sonho - aquelas que se desfazem nos primeiros 30
segundos e se incorporam na terra do esquecido - e
, sim , ele estivera lá, no território
das possibilidades ininputáveis. Ele, o companheiro
de todas as horas, o que não lhe falhava, aquele
que era só prazer. Confusa, lembrou da súbita
consciência de ter, mesmo em sonho, traído
a própria decisão. Pois decidira abandoná-lo
para sempre.Haviam sido 20 anos de convivência
íntima, visceral, cúmplice e suicida.
No início fora só felicidade. O tempo
todo. Da manhã às noites e madrugadas.
Na poesia, na farra , no antes e no depois. E como
fora discreto e suave o início. E como ela
com toda sua exuberância o exibira às
amigas. E como, com ele e por ele, desafiara os pais,
os mestres e os costumes. E como enfrentara o mundo
das conveniências. E como aquilo a consumira.
Aos poucos, com ele e por ele, perdeu o viço,
o tempo, a juventude e a voz. Agora vivia exausta
e ofegante. O desejava e pedia por ele, a qualquer
hora. Por ele perdeu o pudor, se expôs e se
vulnerabilizou. Por ele, foi evitada por muitos. Perdeu
o emprego e a consideração de tantos.
Encurralada, ouviu cada vez mais o mortífero
"ou ele ou eu". Ainda assim, com onipotente
arrogância, jurou o pacto da morte com ele e
por ele. Juntos para sempre. Mesmo sós, definhando,
marginalizados , contra todas as evidências
e conselhos.Mas um dia, nos olhos dos outros se viu
refletida. Imagem patética da decadência
e das sobras da vida. Atordoada sentiu o nojo e o
desprezo que lhe destinavam. De súbito, tomou
a decisão, que apostara irreversível,
e do alto de sua soberba e pretenciosidade, sentenciou
: "Acabou, nunca mais".E esta noite, primeira
da nova vida, pagava o preço da insônia,
do desespero, da insignificância, da angústia
sem fim e do inconfessável arrependimento.
E no terceiro ou quarto despertar da interminável
escuridão mal dormida, na confusão de
quem volta devagar da inconsciência, estendeu
a mão treinada de tantos anos da nicotínica
companhia, no automático gesto de reencontrar
o amado cigarro a quem entregara sua vida.
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