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O Convite

24/08/2001


Enfim chegara, o tão ansiado convite. Desde o divórcio não houve convites. Pelo menos aqueles que uma mulher de quarenta e poucos espera receber. Os muitos casais, amigos dos felizes anos do casamento se afastaram lenta e inexoravelmente. Depois de um período de congestionado trânsito telefônico, compreendera que não se deve confundir solidariedade com curiosidade mórbida. Alimentou durante alguns meses os comentários das festas e reuniões dos que a abandonaram, e sua lembrança acabou por se dissolver na roda viva das outras novidades. E se manteve casta. Agora, frente ao espelho, se preparava para o vernissage da Roberta.
Essa sim, bem casada, vivendo na opulência do tolerante Dr. Silvério, que estrategicamente financiava e estimulava o pouco de artista da jovem esposa Fora amiga deles antes da catástrofe, e com o ex-marido, se cultivavam nas muitas noitadas de teatro, jantares e danceterias. Estava só e nada havia no espelho. Apenas a imagem da morena, com vestidinho preto, colar de pérolas, cabelos presos em gracioso coque e olhos melancólicos. Mãe de dois adolescentes quase sempre ausentes. Pensão dependente. Fracassara nas suas tentativas de emprego.
Os conhecidos e os companheiros de risadas e alegria prometiam se empenhar e lhe desfilavam promessas de oportunidade para breve. Você entende , diziam: É a crise, o mercado só absorve gente qualificada... Claro que você faz o perfil ideal, mas a firma ... E acabara por se dedicar aos filhos e a sua solidão. Curtiu por um tempo a tristeza e esta se tornou um vício. Fora trocada por uma arquiteta, curiosamente mais velha que o pai de seus filhos, cujo nome jurara nunca mais pronunciar. Conforme seu humor era o Ex, Aquele cara, O panaca. Para ocasiões especiais reservava os epítetos de cafetão, also, incompetente, além de outros indizíveis, os quais inevitavelmente apontavam para a hesitação sexual.
Hoje encontraria tantas pessoas que povoaram sua vida social e emocional do tempo da inclusão consentida. Como enfrentaria os olhares eloqüentes, as insinuações e os comentários sobre as mais recentes peripécias do canalha e sua sirigaita arquitetinha? Por um longo período sua condição de fêmea fora sufocada, e os homens apenas lhe provocavam asco e nojo. “Todos iguais”, repetia a cada observação depreciativa ao sexo oposto. Até que em uma noite mal definida, eles se infiltraram em sonhos ambíguos e sobressaltados. Reapareceram em outras ocasiões, deixando um rastro de prazer inconfessável na consciência da manhã.
Os sonhos se fizeram fantasias e estas desejos. O corpo ainda jovem disputava com a mágoa ainda presente a arena da batalha da cama de casal. E ardia na contenção inútil que se vingava na efêmera e decepcionante satisfação dos solitários. Despiu-se num rompante, vestiu lingerie da Victoria Secret, usada apenas uma vez (presente do pecaminoso mulherengo em acesso de culpa inconfessa) . Dispensou o soutien, permitindo a liberdade balouçante dos atributos de sua feminilidade. Descomedida, reforçou a dose do Miracle Lancôme, que espalhou atrás das pequenas orelhas, pulsos e no mergulho dos seios. Acrescentou um pouco ao umbigo. Chutou o tubinho preto, e se acomodou entre os decotes vertiginosos do escandaloso verde esmeralda. Soltou os cabelos, aprofundou a moldura dos olhos , carregou no vermelho do batom. E se viu mulher na imagem especulada. Saiu do apartamento, voltando poucos segundos depois. Deixando a porta aberta, fez os saltos baterem decididos no assoalho de madeira. Na gaveta do criado mudo dos filhos, encontrou os preservativos. Enfiou dois envelopes na bolsinha. “Nunca se sabe” sorriu a loba.