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O perigo da Empurroterapia

05/04/2001


No tempo das sangrias aceitar a prescrição médica podia equivaler a uma sentença de morte. Baseado em um sistema de crenças que misturavam noções religiosas e puros preconceitos, buscava se a purificação com a eliminação do sangue viciado. E muitos sangravam repetidamente, enfraqueciam, eram sangrados de novo e assim até a morte.

Por outro lado, isso refletia os modos de ver as coisas por parte do povo comum. Quem não se lembra das famosas teias de aranha que eram colocadas no coto umbilical para "auxiliar" a cicatrização ? Auxiliavam, quando muito, o desenvolvimento do tétano.

A medicina só muito recentemente adquiriu o status de ciência. Ainda que mesclada à arte, passou a exigir de si mesma provas e evidencias verificáveis e previsíveis. Isto evidentemente não lhe confere infalibilidade. O ser humano é complexo, é finito e é exigente.

O recurso terapêutico clinico mais utilizado nesta era de racionalidade é o da medicação. Os medicamentos são substancias químicas, que introduzidas de alguma forma no organismo, influenciam e alteram algumas funções. Poucos concebem hoje ser possível sair de uma consulta médica sem uma receita de algum (ou alguns) medicamento na mão.

Os medicamentos passaram a ser um real fator de cura ou alivio sintomático, e obtiveram tanto sucesso, que hoje a industria farmacêutica é um dos setores mais poderosos da economia mundial.

Bem indicados, e adequadamente tomados, os medicamentos têm promovido a qualidade e quantidade de vida. Mas nem sempre são isentos de efeitos colaterais que às vezes podem ser fatais. Estima se que até 100 mil pessoas morrem por ano no mundo em conseqüência de reações aos medicamentos, e que cerca de 8 milhões de pessoas sofrem com os seus efeitos colaterais.

Neste contexto preocupa o fenômeno da auto medicação e da empurroterapia, que no Brasil adquire importância ainda maior já que as leis que deveriam inibi la existem e poderiam ser muito eficientes se devidamente aplicadas.

Muitos, impressionados com os resultados terapêuticos conseguidos por parentes ou conhecidos com determinado fármaco, tentam ao administra los a si próprios chegar aos mesmos benefícios. Às vezes o conseguem, mas na maioria das vezes apenas gastam dinheiro, protelam o efetivo tratamento e se expõem aos efeitos colaterais.

Existem situações em que essa pratica leva até mesmo a uma perda da potência do medicamento numa situação futura, como no caso dos antibióticos.

Entre a automedicação intempestiva e a prudência é melhor atender ao secular conselho: Primum non nocere (antes de tudo não prejudicar).