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O pingo |
28/06/2001 |
No inicio era tudo tolerado. Eles
até achavam graça nas fissuras do relacionamento.
O bife queimado, a batata crua, o beijo antes a escova
depois. Quantas vezes não brincaram de ver
o futuro nos hieróglifos dos cabelos no sabonete
! "Minha bochechudinha", "Meu docinho".
Entre risinhos, ela comentava com as amigas do como
ele era distraidinho; e ele, no hiato do chope e da
calabreza, falava das pequenas manias da esposinha.
Magnânimos, descreviam a sempre perdida tampinha
da pasta de dente que invariavelmente era encontrada
no sufocado ralo. Dos travesseiros que, teimosamente,
conservavam o cheiro da paixão por semanas.
Dos tropeços inevitáveis do cotidiano.
E tudo foi graça e encanto enquanto ainda borbulhava
a química serotoninica do amor.O tempo passou,
o encanto passou, a ampulheta virou e o amor acomodou.
A natureza os empurrou para sua precípua função
de sentido ainda a descobrir. Com alegria e algum
prazer, juntaram seus genes na embaralhada meiótica
do acaso. Vieram os pimpolhos, o maravilhoso mundo
da maternidade, as alegrias da perpetuação
e as estrias.E por não terem assimilado a grande
lição da vida, se instalou a intolerância.Veio
na forma de uma gota, olho amarelo do demônio,
pousado solene no assento da bacia. Diariamente, noite
após noite, foi depositada pelo sacudir distraído
do até então admirado, e hoje sonolento,
companheiro.Assincrônica, malvada e preguiçosa,
lá estava ela no banheiro escuro do apagão.
Traiçoeira, criava seus satélites, que
deixavam sua marcas nas frias nádegas da bochechudinha.E
ela cultivou, convergiu e concentrou seus ressentimentos
de década e meia naquele pesadelo nojento do
machismo vertical.Viu no inevitável pingo,
em cada madrugada, o pouco caso, o desrespeito, a
flacidez, as noites de cerveja, as supostas infidelidades,
o sorriso raro, o beijo apenas estalado, a decadência
na esquina do tempo e o sonho perdido.Reativamente,
a raiva projetada ao indecente gênero masculino,
a fez baixar o espírito da Betty Friedman,
(logo substituído pelo da Sra. Hill - já
que não se propunha a queimar soutiens por
ter volumosos apêndices acostumados aos confortos
antinewtonianos). Pensou na Camille Paglia, mas era
muita racionalidade para seu ódio.Foi quando
enfim tomou a decisão irreversível e
irrevogável, e na presença dos togados
da audiência de tentativa de reconciliação,
sentiu se amparada pela pesquisa que apontava as maiores
causas de tumultos conjugais; e antes da segunda lágrima
exclamou : "Foi o Pingo, a gota que transbordou
!".
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