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O velho, o menino e o Viagra

26/04/2001


Reunido com representantes do Conselho Regional de Farmácia, fui informado que neste momento o medicamento de maior faturamento no Brasil é o Viagra. Pois é... Acontecem dessas coisas na terra da dengue, da cosmética e da cachaça. Por cerca de 15 reais, você é readmitido na confraria dos destruidores de corações. A pílula azul faz de você um novo homem. De triste e cabisbaixo, quando não cronicamente humilhado, sorrindo amarelo ao ouvir as lorotas dos amigos indiscretos a respeito de suas supostas proezas; ela te faz confiante e atrevido. Renascido, te faz audacioso. E tome novo penteado (talvez um implante, quando sobrar dinheiro), cores e perfumes, camisa aberta sobre o peito levemente encanecido.O que descrevo acima é a tradução da fantasia do cidadão de meia idade com eventuais problemas de potencia sexual, estes quase sempre motivados por insegurança das mais variadas matizes. Mas, o meu comentário deve focar outro consumidor. Ele está na faixa dos sessenta, casado, aposentado ou quase. Tem filhos "já criados e encaminhados graças a Deus". À semelhança do Renato Aragão, já tomou a vacina contra a gripe no seu antes musculoso deltóide. Hábitos regulares, Jornal Nacional, novela das nove e pijama. Almoço aos domingos com a família reunida. De vez em quando, Guarujá ou Campos do Jordão. Quando de bom humor uma sessão de cinema em dia de gratuidade.Dona Maria já está com aqueles quilinhos da dignidade materna. A discrição em pessoa. O vestido com pequenas flores. Cozinha bem, ninguém faz uma lasanha como ela. Agora, a cama é para dormir. E só. Há muito tempo, o amor é manifestado de outro jeito. Com carinho, companheirismo, solidariedade, enfim mais para colinas serenas que para Vesúvio.E aí aprece o Viagra. A vergonha não deixa seu José buscar na farmácia. É duro enfrentar o olhar malicioso da jovem balconista. Mas não tem problema. Hoje, remédio se entrega em casa. Como o gás e as encomendas de correio. Discreto, rápido, caixa fechada como se fosse material pornô. Uma pílula, uma hora de latência (em todos os sentidos) e, de repente, algo acontece. Uma verdadeira ressurreição. Amores reencontrados, paixões reascendidas. Pijama adeus !Uma nova vida, um novo drama. Dona Maria já não está lá estas coisas. Não se parece com todas as oferecidas das capas de revista. Na banheira do Gugu, sucesso é que não faria. Habituou-se à serenidade da maturidade. E de repente, tudo muda. Exigências podem ser atendidas. Emoções desaprendidas e papéis de difícil readaptação. Seu José feliz e lampeiro. Dona Maria vê seu universo balançar.Com isso quero dizer: Recuperar a potencia sexual é ótimo, para todos. Principalmente se houver amor e respeito. Agora, muito cuidado ! Isso exige preparação. O casal deverá sair de um estado de estabilidade harmônica para um equilíbrio precário de diferenças súbitas.Seu José: antes de tomar sua pílula do amor e sair por aí feito priápico vovô, converse com Dona Maria e só depois trilhem essa felicidade unida e combinada.Ah ! Querem saber da razão do menino do título ? É porque os adultos jovens constituem a maior fatia de consumidores do Viagra !