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Os 5 degraus
da crise |
12/07/2001 |
Negação
Ouviu o baque surdo, e sentiu
que vinha das entranhas do veleiro. Tudo estava bem
até então. Brisa suave de través
a boreste. A buja em harmonia com a vela mestra. Agora
o leme mal obedecia e rodou indócil fazendo
os panos drapejar e estalar como tapas na cara. Julgou,
contra todas as evidências, que se tratava apenas
de uma rajada de vento virando. Afinal, as cartas
náuticas nada indicavam, o sonar estaria ligado
(confiara a tarefa da manutenção dos
instrumentos à nova companheira). "Não
pode ser nada" pensou, "já passei
por aqui e sempre foi bem". Tentou evitar o embaraço
e resolveu não dividir a angústia.
Revolta
Ela emergiu da gaiúta o
rosto jovem e agora sulcado de algumas rugas (umas
de sol excessivo e outras de preocupação
recente). "Que foi isso, amor ?" A raiva
crescendo, resolveu descontar na característica
feminina de mais perguntar que responder. Mandou a
cretina (é assim que a chamava, quando as coisas
não corriam de acordo) ajudar com energia e
sem mais conversa, baixar as velas que ameaçavam,
sombriamente, adernar a embarcação.
Entre impropérios, que inevitavelmente aludiam
à condição da inferioridade intelectual
das mulheres, concluiu que a pateta esquecera de religar
os aparelhos com a desculpa de economia de energia
- com privilégio óbvio e inconfessável
de direcioná-la na audição do
último CD do Djavan. Possesso, já convencido
ter batido a quilha - e encalhado - no traiçoeiro
banco de areia, chutou um cunho e conseguiu levantar
uma tampa na unha do hálux direito.
Negociação
Era seu primeiro cruzeiro com
a bruxa. Tinha tomado as grandes decisões da
vida nos décimos de segundo que durara a queda
do mastro de seu primeiro veleiro dos raros fins de
semana livres, quando da tentativa desastrada de desembaraçar
o cabo da adriça nos estais. Durante o atimoso
e grotesco vôo decidira, rezando às divindades
dos credos esquecidos, largar a vida dos estresses
da globalização, trocar de mulher, negociar
o BMW por um barco decente e sair pelo mundo. Foi
atendido, sobreviveu às duas semanas de parestesias,
comprou o 35 pés e o batizou de "Vida
Nova". Agora repetiu o mágico ritual e
se dirigiu a Netuno e aos deuses mais convencionais,
jurando que se dessa saísse, cumpriria pelo
menos 7 dos 10 mandamentos (generosamente somou à
promessa o corte do vetusto rabinho de cavalo).
Depressão
A inclinação do
agora imobilizado Vida Nova já chegava a 25
graus, ameaçando inundar o convés, e
transformar o colchão dos renascidos amores,
em papa encharcada de água salgada. Equilibrou
o copo de uísque como pôde , sufocou
o soluço, pediu perdão à distraída
, culpou-se pela imprudência (afinal de contas
, ele era o capitão) e recebeu de volta o olhar
de piedade e desprezo, com a promessa implícita
da vingança que não tardaria. Viu seu
mundo ruir, seus projetos liquefazer, o Caribe longínquo
e a dignidade despencar. Pior de tudo, não
havia sonho substituto. Sem fichas de reserva, sem
crédito, só restava o desgosto e a decadência.
Sem barco, não haveria romance. O que tinha
ele senão a excessivamente grotesca experiência
de vida ? Como poderia a jovenzinha do irônico
e odioso sorriso o aceitar sem o pôr de sol
sereno dos mares sem fim ? Pressentiu sua definitiva
insignificância, abafou o indisfarçável
soluço e virou o copo.
Aceitação
Pensou que afinal de contas, trocar
a cama Queen Size da proa por um beliche com escadinha
na próxima pousada o livraria das exigências
tórridas e inexeqüíveis da companheirinha.
Refletiu sobre as finitudes das coisas. Filosofou
que recordar era viver, o seu estoque de fotos de
alegrias passadas, e lembrou do sábio conselho
dos verdadeiros marujos: "Quando seu barco está
irremediavelmente encalhado, nada mais resta senão
esperar pela próxima maré".
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