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Par Delicatesse

29/08/2001


A neblina da fria manhã começava a dissolver-se . Este seria mais um dia de tumulto e angústia no aeroporto. Nos muitos guichês de check-in, as pessoas se acotovelavam na esperança da confirmação de vôo nos jatos que começavam a pousar. A muito custo se organizavam filas que, fieis à tradição dos deseducados, se bifurcavam e depois trifurcavam. Não bastasse a natureza do inverno, a ganância das operadoras e seus over-bookings desafiavam a dignidade do consumidor. Modesto segurava com firmeza a maletinha Samsonite preta na mão esquerda. Nela havia distribuído cuidadosamente seu tantas vezes revisado curriculum vitae, uma camisa social, uma cueca, o barbeador e outros apetrechos de higiene. Incluíra na véspera um lustra-sapatos argentino, pois sabia da importância do brilho nos calçados nas avaliações dos candidatos a emprego. A seleção dar-se ia àquela tarde em Porto Alegre e ele sentia-se otimista como nunca. Finalmente a conjugação dos fatores favoráveis se fizera, e toda uma longa carreira de sucesso parecia ao alcance da mão. À sua frente uma jovem de longos cabelos negros, botas e saia curtíssima sob um generoso casacão de couro avermelhado, manifestava suas opiniões sobre isso e aquilo a quem quisesse ouvir. De quando em quando olhava para trás e para os lados e seus olhos cruzavam com os de Modesto. Este, educadíssimo e tímido por natureza, havia incorporado o nome ao caráter, e mantinha seu pequeno sorriso de subalterno tentando demonstrar respeitoso interesse às irrelevâncias manifestadas da moça. Assim tinha sido sua vida toda: delicado, reverente, preocupadíssimo com a correção das coisas, respeitoso até a servilidade e disponível. Citava sempre o sábio Salomão , dizendo que se media a prudência de um homem pela sua paciência, e assim se candidatava à condescendência. A morena , compulsivamente, levava com os dedos entreabertos as longas franjas sistematicamente para o lado errado, o que provocava um belo efeito, embora de curtíssima duração. Sua intuição de candidata a mulher a fez perceber o ouvinte em potencial de Modesto e ela estimulou a conversação com uma pequena exibição bem ensaiada do conteúdo da blusinha. Modesto corou com o privilégio e ela não se fez de rogada. Misturando a teatralização dos vôos capilares com a apresentação de um magnífico joelho da perna pousada sobre seu saco de bagagens, deu asas à loquacidade e preencheu o cadastro que antecede a intimidade das relações humanas. Também ia para Porto Alegre, estudava na Fundação Álvares Penteado, fazia um bico em uma agência de propaganda e marketing, gostava de chopinho e torresmo, comprava todos os CDs do Pato Fu e estava esperando uma amiga que a acompanharia a São Bento do Sul ver a neve. Não, não tinha namorado respondeu com olhar de malicia à única pergunta de Modesto. E ficou no ar um certo clima. A fila se arrastava, já se sugeria que não haveria lugar para todos, e a frustração iminente começava a se fazer sentir. Modesto contava e recontava as pessoas à frente. Tentou manter a calma, mas percebeu se um pouco ofegante e com a sensação da existência de uma ressonância surda na caixa torácica. Afinal, essa viagem representava a condensação de todo um sonho construído por anos de esforço, submissões e sacrifícios. E não haveria outra chance até onde seu olhar redondo podia alcançar. A morena interrompeu seu solilóquio de frases sem sentido, e soltou um gritinho de alegria genuína ao avistar a amiga retardatária. Logo se puseram a cacarejar, uma explicando que o trânsito estava congestionado e que o Beto dirigia como uma lesma, e a outra excitada dizendo o quanto se divertiriam no sul. A morena, lembrou-se por um átimo do Modesto e o apresentou à amiga , que incontinenti perguntou se haveria problema em permanecer à sua frente. Modesto balbuciou e mais uma vez não soube negar. A última passagem foi emitida para a namorada do Beto (o tal que dirigia como lesma); e na cadeia dos acontecimentos que fazem a existência, Modesto perdeu o seu lugar. Por delicadeza perderia a vida.