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Para sempre, Amor ...

31/05/2001


Os diamantes são para sempre e assim pretendem ser as tatuagens. De qualquer modo sempre acompanharam a trajetória do homem que se pretende civilizado. Desde a idade do bronze, temos evidências destes arabescos curiosos nos corpos de homens e mulheres. Encontramos tatuagens em múmias de ambos os sexos. Adornaram os peitoris dos vikings que entre um estupro e outro sempre encontraram tempo e artistas para os decorar. Os romanos também não ficavam atrás, nem nas tatuagens e muito menos nos estupros. Os cruzados, que o tempo quis recatados, se tatuavam indicando ter alcançado a Terra Santa (e suas donzelas evidentemente). Os maoris têm até hoje o corpo inteiro coberto de tatuagem e definitivamente não trocam essa roupagem por nenhum Giorgio Armani. Índios do norte e do sul. Japoneses e chineses. Esquimós também (antes de congelarem completamente no processo).A lista é muito extensa e acabará por ficar monótona. Por isso opto por ficar no aqui e agora. Em nosso momento, os tatoos (a palavra vem do Taiti e é onomatopaica, imitando o som Tat-tat-tatoo-tat que acompanhavam o ritmo das agulhas) iniciaram sua trajetória na forma de inocentes âncoras nos braços marinheiros. Os mais atrevidos e criativos deixavam gravada uma rechonchuda odalisca azul a sacudir o volumoso abdômen em seus sarados bíceps.Possivelmente enamorados dos musculosos homens do mar, as legiões SS resolveram se identificar uns aos outros entupindo seus macrófagos da axila esquerda com tinta azul e assim sacramentaram sua irmandade de crueldade e perversão. Satisfeitos com a proeza resolveram, com método e obsessividade germânicas, numerar suas vítimas nos antebraços. Sua obstinação e organização geraram números de quase oito dígitos. Mais um dígito e alcançariam a meta de mil anos do Reich. Faltou pouco. Estão se reorganizando e seus herdeiros hoje raspam a cabeça e continuam se tatuando. Ainda estão no estágio da patetice, mas que ninguém duvide de sua capacidade de mobilizar a psicose coletiva. Impressionados com a selvageria e espírito de grupo, os hoje jovens, e que ontem foram beatnicks e hippies, adotaram o estigma como forma de consolidar o espírito grupal que caracteriza a adolescência desta espécie Lupo-humana.Como tudo que é exótico e provocativo, acabaram por ver sua moda massificada, pasteurizada e naturalmente inspiração comercial neste mundo de idéias globais. Hoje, moçoilas, senhoras e vetustas ostentam provocativamente os dragões, serpentes e orquídeas nas peles que um dia necessitarão de faxina. Não posso negar o sucesso que algumas alcançaram ao, criativamente, encomendar uma borboletinha no sulco inter glúteo. Com uma asinha de cada lado, o azulado lepidóptero emite sinais inequívocos de convites incomentáveis. Novos amores furiosos na relação renovada. Aquela história: pápula, crisálida e fulgurante borboleta. E haja feromônios ! Outras, menos imaginativas e com certeza pouco previdentes, estão assistindo à inevitável atração gravitacional e, desoladas, assistem às obras de arte sucumbir entre pregas, mergulhando inexoravelmente em direção ao tornozelo. Casaizinhos apaixonados selam suas juras de amor com economia. Já que alianças com brilhantinho em cima estão fora do orçamento dos órfãos do apagão, uma pequena tatuagem nas zonas permitidas apenas ao amante ou ao idoso ginecologista determinarão inequivocadamente a propriedade.Hoje esse negócio de tatuagem ainda conserva um certo encanto e embora não substitua a palavra dada, a lealdade e a sinceridade inspiram o poeta a propor:"Quero ficar no teu corpo, feito tatuagem,
Que é prá te dar coragem, de seguir viagem,
Quando a noite vem."