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Pega,
mata e come |
19/04/2001 |
Há poucas semanas, tomamos
conhecimento de rebelião em presídio
do interior. Ao lado das habituais cenas de horror
e incompetência, soubemos da dantesca comilança
do coração de uma das vítimas.
Em algumas circunstâncias, o bicho homem é
expert em mutilações e matanças,
e de vez em quando devora nacos de seus desafetos.
Mike Tyson, por exemplo, parece ter predileção
por pavilhões auriculares.Incesto e canibalismo
são os dois maiores tabus da civilização
ocidental. E isso não é desprovido de
significado. O incesto privilegia a seleção
de gens recessivos, fazendo aumentar a possibilidade
de debilidades genéticas. Todavia, o assunto
de hoje não é Édipo e Jocasta.
Vamos falar de comer nossos semelhantes senso estricto.
Essa careta de nojo que o leitor pode estar ensaiando
não é fortuita. É a manifestação
de repugnância absoluta à simples idéia
de pensar em ingerir carne humana.Agora, será
que isso é inato ? Interessa à natureza
e à evolução a não ingestão
de partes de membros da nossa espécie ? Não
é curioso que esse costume tenha sido largamente
utilizado por comunidades inteiras ? E que essas têm
sido sistematicamente qualificadas de primitivas e
que tenham desaparecido ? Não haveria aí
a equivalência com o incesto, aumentando a concentração
de condições patogênicas vitimizadoras
da espécie ? Só para ilustrar: a suspeita
de antropofagia ritual em povos da Nova Guiné
aparenta estar associada à Encefalite Espongiforme
Humana (parente próxima à doença
da Vaca Louca). Então, talvez possamos deduzir
que se alimentar com membros da mesma espécie,
traria desvantagem seletiva a seus praticantes.A história
do Continente Americano está associada de norte
a sul à antropofagia. Quem se debruça
sobre as histórias dos colonizadores espanhóis
e portugueses acaba seguindo uma trilha de ossos humanos
churrascados e corpos despedaçados. Algumas
vezes por fome dos algozes. Quase sempre por ritual.
Canibal significa "caribal", do Caribe.
A corruptela se deu em função da má
grafia do pessoal que redigiu a primeira carta de
Colombo... Temos extensos relatos e gravuras dessa
culinária que fez furor até há
poucas centenas de anos atrás.Vejam o que diz
o historiador Tevet em sua obra Singularidades da
França Antártica: " (...) logo
o corpo do executado fica reduzido a postas, tendo-se
o cuidado de aparar o sangue e com ele banhar os meninos,
afim de torná-los, como dizem, bravios (...).
Finalmente, o corpo, assim reduzido a pedaços
e assado à moda indígena, passa a ser
distribuído por todos, ficando cada um com
o seu quinhão, qualquer que seja o número
de presentes. É verdade que as entranhas são
comumente consumidas pela mulheres; quanto à
cabeça, espeta-na os selvagens na ponta de
uma vara, colocada na oca, como sinal de triunfo e
vitória (especialmente mostram os índios
prazer em espetar as dos portugueses)."Muitos
Bispos Sardinhas foram devidamente jantados nesta
terra bonita por natureza. De forma geral todos os
rituais apontam para uma dupla função:
a conveniente destruição do inimigo
associada à apropriação de suas
qualidades por ingestão de seu corpo. A questão
é: Com tantas qualidades incorporadas, porque
não vingaram ? Porque não continuaram
florescendo ? Porque o planeta não é
habitado por povos e mais povos amantes da culinária
antropofágica ?Não dá certo ingerir
carne de seus semelhantes, assim como não vai
dar certo comer galinhas estrogênicas, cenouras
transgênicas, corantes líquidos gaseificados
e fast-food de pé. Vejam o exemplo da doença
da Vaca Louca e ouçamos os recados da mãe
natureza, que continuamente nos sussurra o que é
certo e errado.
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