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Podolatria
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24/10/2002 |
A casa ao lado foi desocupada
com a morte da viúva e, por alguns, meses permaneceu
como que abandonada. Do quintal, Lucas olhava desolado
por sobre o muro da divisa as ervas daninhas avançando
sobre as roseiras tão persistentemente cultivadas
e sentia uma certa nostalgia ao recordar a vetusta
figura curvada sobre botões e espinhos no ocaso
da vida. Depois de algum tempo, apareceu o filho herdeiro
que mandou cimentar o que fora um jardim, e depois
da mão de tinta convencional que cobre as lembranças
e os indícios da presença, colocou a
casa para alugar.Num sábado, poucas semanas
depois, um caminhão encostou descarregando
a mobília de quatro moças muito animadas
falando aos borbotões. Lucas comentou com a
mãe que deviam ser estudantes da universidade
e que suas presenças talvez emprestassem finalmente
uma nota alegre nesta rua de aposentados e recém-casados.
Na mesma noite ouviu-se um arrastar de móveis
e um matraquear insistente permeado de gritinhos e
exclamações. Lucas ficou na sala até
muito tarde, mantendo baixo o volume da TV, e tentando
absorver os sons da vida nova instalada a poucos metros
de si. Era um jovem muito tímido, filho único,
mãe e pai extremamente religiosos que cultivavam
uma noção de pecado, que abrangia tudo
que não fosse retidão, contenção
ou humildade. Fora marcado para sempre quando surpreendido
descobrindo a si mesmo e às surpresas dos hormônios
em certas experiências solitárias nos
primórdios da adolescência; e a coisa
tomou um rumo meio desconcertado. Foi-lhe sugerido
que essas práticas fariam sua virilidade desaparecer
e que consumiria sua energia exsudando vergonhosos
e reveladores estigmas purulentos no rosto. Das novas
vizinhas, uma o fascinava especialmente. Seus longos
cabelos castanhos em rabo de cavalo revelavam um rosto
autoconfiante, de riso fácil e olhos quase
verdes que encaravam e faziam Lucas corar. Nos segredos
da blusa pendulavam a feminilidade madura que explodia
em curvas ladeira abaixo. E lá, no fim do caminho,
os pés. Elegantes, delicados, obra-prima da
natureza onde os tarsos harmonizavam com o delicioso
calcâneo, onde a graciosa curvatura dos artelhos
dava o acabamento perfeito ao dorso róseo e
à pegada milagrosa. Um Lucas siderado fora
a eles apresentados desnudos quando a viu regando
a calçada. Nesse momento, ele descobriu como
seria fácil adorar sem se expor, e mesmo cabisbaixo,
lhe seria possível admirar e saborear os encantos
das mulheres. E nenhuma outra parte do corpo é
tão cultivada e paparicada como os pés.
De sandálias, salto alto, plataforma, tênis,
chinelas, pantufas, que riqueza de vestuário!
Qual a intimidade maior daquela em que, de pernas
largamente cruzadas, sobre o sofá, se passa
o delicado pincel no ornamento esmaltado das pequenas
unhas? E o que dizer do lânguido balançar
distraído dos pés a brincar de se libertar
do calçado? Foi disso que o desejo de Lucas
se alimentou. Em um determinado fim de tarde, com
o coração a esmagar seu peito, pulou
a divisa murada e furtou do varal vizinho uma meia
soquete que sabia pertencer aos pés da amada.
Deitava-se com ela nas mãos ou sob o rosto,
ou ainda muito junto ao corpo que se fazia adulto.
Antes de adormecer aspirava profundamente a intimidade
dos vestígios de seu cheiro no algodão
branco com listras vermelhas. Com o tempo a possuiu
de todas as maneiras de que eram capazes sua imaginação
e paixão e a fez amante. Homem feito, a carregou
para todos os lugares e lhe foi fiel. Mesmo casado,
a soquete branca e de listras vermelhas era o vértice
do triângulo no leito conjugal, e só
podia amar depois de aspirar o fantasma daqueles pés
que não mais sabia por onde andavam.
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