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Reflexões
de um corpo no asfalto |
07/02/2002 |
A maior parte dos vivos acredita que nós, os
defuntos, estamos totalmente mortos. Isto é
apenas parcialmente verdadeiro. De fato, embora sem
atividade cerebral detectável, imóveis
e incapazes de qualquer manifestação
verbal, somos conscientes e podemos perceber e pensar.
A natureza, por divina sapiência, nos faz liberar
substancias químicas no momento da derradeira
agonia (e que eu¸ por presunção,
batizo de defuntininas), cuja função
é de nos preparar para a grande viagem. Sob
a ação das defuntininas, nos sentimos
tranqüilos e conformados, mesmo ouvindo tudo
que dizem a nosso respeito nos velórios e enterros.
E quanta historia têm os desaparecidos para
contar no fim da jornada! Vocês nem imaginam
os constrangimentos quando, no reino dos céus,
nos encontramos outra vez com os familiares, amigos
e conhecidos, todos emissores das inconfidências
sussurradas em nossa presença imóvel
e horizontal.Neste momento em particular, estou parado
na rodovia D. Pedro ( parado é forca de expressão,
já que minha imobilidade é definitiva).
Do porta-malas onde está meu caixão
de cedrinho barato, posso perceber o drama do motorista.
Entendi que está sendo assaltado por pequenos
desajustados sociais, que no jargão de onde
emanam algumas palavras de português, lhe estão
mandando se despir. Repartem imediatamente o butim
das roupas e dos poucos pertences. As coronhadas são
para ele aprender a não ser tão pobre
e lamurioso. O radio é solenemente destruído
na tentativa de o arrancar do painel. A discussão
que se segue me é particularmente humilhante.
Dizem alguma coisa sobre a conveniência de me
desnudar também. Hei, vamos parar com isso!
Isso me seria intolerável e por demais aviltante.
Como passar o último dia na superfície
deste planeta nu e em companhia de outro homem (também
pelado) na beira do asfalto? Já não
basta a insultuosa causa mortis no meu atestado de
óbito, onde consta “doença infecto-contagiosa
indeterminada” com todas as insinuações
conseqüentes de ser portador da estigmatizada
doença de quatro letras que não me atrevo
pronunciar? Concordo que tive febres, diarréias
e hemorragias; e estou ciente da relutância
que alguns têm em acrescentar mais um número
nas estatísticas de Cólera, Dengue hemorrágica
e Leishmaniose visceral a serem divulgadas. Qual o
problema afinal em reconhecer essas doenças?
Elas também têm saudades desta terra
onde canta o sabiá (e onde zune o Aedes aegypti)
e retornam a cada distração dos governos
que dizem fazer tudo pelo social.Bom, pelo jeito fui
poupado deste insulto final à minha existência.
Fui salvo pelo desonroso e indignificante comentário
de poder estar fedendo. O motorista (nu), foi buscar
ajuda e cá estou sozinho. Penso na conta que
minha família terá de arcar em complemento
à já assumida por esta estúpida
transferência do Rio de Janeiro até minha
querida terra em Minas. É minha sina de azarado.
Além de tudo que me acontece nos estertores
da existência, ainda terei de pagar mais por
serviços prestados neste município recordista
em taxação de ISSQN. Como se morrer
e ser enterrado fossem um serviço de qualquer
natureza!N.B. Esse riccontini foi inspirado em notícia
desta semana no Correio, e algumas semelhanças
com vivos ou mortos não é mera coincidência.
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