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Sacolas
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01/08/2002 |
Lurdinha agora estava às
voltas com as muitas sacolas das compras. Escolhera
cuidadosamente cada uma das blusas e saias. Afinal,
a segunda onda de frio estava anunciada e não
perderia por nada a ocasião de se mostrar elegantemente
aquecida nos muitos fondues, raclettes, vinhos e queijos
que inevitavelmente se dariam em volta de todas lareiras
ainda virgens das amigas. Permitiu-se um par de botas
de uma magnífica cor de grafite que a fariam
sensual e desejada, estourando assim a já flexível
verba do maridão. Encostou as muito coloridas
embalagens dos tesouros de sua escolha junto às
pernas e segurou os pacotes com fitas excessivas na
mão esquerda. Estava um pouco atrasasada para
a hora marcada de ser apanhada em frente à
última butique visitada. O celular já
havia tocado e, na confusão de mãos
ocupadas, bolsa fechada e cigarro aceso, não
interceptara a voz do queridão anunciando que
já houvera passado, que o trânsito estava
ruim e que voltaria mais tarde. Assim, ficou à
espreita, pelo lado de fora, para não sucumbir
a mais uma tentação das sedas e não
provocar uma desnecessária discussão
de retardatária crônica.Um pouco a sua
esquerda um casal maltrapilho se aproximou e o homem
vestindo trapos, barba por fazer (se é que
um dia fora feita), carregando um grande saco de poliéster
por entre os dentes em ruínas lhe pediu, na
nuvem de cheiro de podridão e sujeira, um trocado
para um café com leite. Enojada, Lurdinha fez
que não ouviu, mas aproximou instintivamente
as sacolas um pouco mais junto às pernas. O
segurança da butique logo enxotou os mendigos,
que sem reclamar se acomodaram no chão quase
na esquina. Amontoaram os pertences imundos ao lado
e ele passou o braço pelo ombro da companheira.
Esta de idade indefinida, ostentava no rosto destruído,
olhos de surpreendente beleza - embora sem brilho
-, emoldurados por um rosto macilento e cabelos desgrenhados.
Ela sorriu, tossiu e resmungou. Por alguma razão,
eles riram e Lurdinha virou o rosto botoxado soprando
a última baforada e, por força do hábito,
não deixou de imaginar ser o alvo de alguma
ironia. O trânsito já começava
a rarear e nada do marido. Ouviu mais risos e, curiosa,
tornou a observar os miseráveis que repartindo
um croquete conquistado sabe-se lá como, se
engalfinhavam como gatos por uma garrafa de casco
escuro com um óbvio conteúdo de cachaça
barata. Sentiu um misto e ambíguo sentimento
de nojo e admiração, e ficou embaraçada
por não estar com a definição
exata do rótulo que se habituara a dar às
pessoas e às coisas. Não conseguia deixar
de se comover com o afeto que brotava daqueles dois
humanóides e o respeito rude com que se tratavam.
Lurdinha não pôde deixar de ouvir a miserável
de olhos profundos exclamar: "Ô cacete,
vamos logo com isso!" e a viu arrancando a garrafa
da mão do companheiro, sorvendo um longo gole
no gargalo. Em seguida foi imitada pelo homem das
cavernas, que lhe sapecou um beijo estalado na bochecha
suja.A buzina irritada a fez sobressaltar e, um impaciente
marido, a mandou embarcar. Lurdinha abriu a porta
traseira do carrão e foi ali acomodando as
sacolas. E foi quando ouviu, na voz intimidante do
marido, o eco que o destino lhe reservara e que transformaria
para sempre seu destino: "Ô cacete, vamos
logo com isso!". Perplexa, Lurdinha se acomodou
na poltrona de couro negro e pediu para irem direto
para casa. Resmungou: "Estou precisando de um
drinque duplo", e jogou um olhar de inveja para
o casal que, absorvido um com o outro, não
tomava conhecimento de sua partida.
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