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Sei que acabarei explodindo

19/09/2002


Acho que estou enrascado. Os minutos que se seguirão serão os determinantes de minha sobrevivência. Eu sempre soube que mais dia, menos dia, teria que contar com minha feiúra e aspecto repugnante para obter a misericórdia e continuar vivendo. Quando me qualifico de forma tão pejorativa é para assumir os conceitos estéticos de meus dominadores. Afinal, são eles que dão nome e qualidade às coisas. Sou um ser solitário, não sou dado a andar em turmas ou gangues, não me pavoneio, sendo totalmente discreto. Por não disputar formosura, acreditei que seria poupado no mundo dos vaidosos, onde se mutila e mata por uma fração de efêmera glória.A minha insignificância me banalizou a ponto de servir de bucha de canhão para experimentos, e embora vocês, seres supostamente sapientes, pouco saibam (ou se interessem) a meu respeito, fui escolhido como objeto de estudo da moda. E consideráveis somas foram ganhas por institutos e laboratórios às minhas custas. Teses e mais teses alimentaram egos inflados de candidatos a uma genialidade em petit comitê. E eles nem sabem como amo e procrio. Isso me diverte muito porque reservo a surpreendente revelação para outras gerações mais ávidas e capazes de fantasias sexuais. Dou um desconto para certas feministas, que motivadas por frustrações mal resolvidas notaram minha excelência como pai, e mais ainda, repararam na independência de minha companheira (o possessivo no caso é força de expressão). De todo modo, horroroso ou não, somos parentes, e está estabelecido que desde meio bilhão de anos atrás fomos uma coisa só, e que agora vocês se chamam sapientes, gente, humanos e sabe se lá o que mais; e eu recebo o escatofônico apelido de Baiacu. Não podia ser só Baia? Não, vocês tinham que me insultar, eu e meus primos em segundo grau, os Pirarus. Por favor, não me menosprezem demais. Pertenço a uma grande família com sobrenomes Açu, Pinimba, Guará, Areia e outros. No conjunto, somos sutilmente diferentes, e seguramente um pouco menos feios que os Baiacus-espinhos, que são apenas diondontídeos e nós somos tetra. Olhem, me permitam comentar que graças a mim vocês descobriram uma porção de delicados e fundamentais detalhes a respeito de vosso genoma. Nosso sacrifício vos permitirá sobreviver um pouco mais neste planeta agonizante. Mas, não esqueçam, que a se cumprir a profecia, o mundo cedo ou tarde, será dos feios, dos pobres e dos humildes como nós. Nós, os Baias que comemos de tudo sem reclamar. Água suja, água limpa, beira de rio, flanco de cais, Atlântico ou Pacífico, tanto faz. Cultivamos a modéstia e santificamos a discrição. Dizemos: "Bem aventurados sejam os cinzentos, pois serão poupados". Qualquer pescador sabe que acabando o robalo, a pescada, a anchova e a xumberga, ainda terá um baiacu a morder sua isca, seja ela de camarão vivo, lula ou restolho orgânico. Pois é, caros parentes (e me atrevo a vos assim chamar considerando os 75 por cento de genes que temos em comum; isso ofende sua beleza cara senhora? Paciência é assim a vida), não obstante o desprezo, ainda usam-me para as maiores vilanias. Retiram de nossos fígados e ovários a nossa post mortem vingança (toxinas tomadas de empréstimo às bactérias e algas que paralisam os músculos e vos mandam para o quinto dos infernos). Não é que os laboriosos Tontons Macoutes haitianos a descobriram e usaram para fabricar mortos vivos, que alcunharam de zumbis? Precisavam de nós para essa obscenidade? Há meios muito mais civilizados para escravizar pessoas e as submeter à sua vontade, e tudo dentro dos conformes e da lei. Muito teria ainda a dizer, mas o tempo é curto, e fui fisgado como alguns de vocês já devem ter adivinhado. Lutei como está convencionado para salvar as aparências e dignificar o meu nome. Foi inútil, e agora estou deitado de costas na areia, inflando como determinado aos moribundos de minha espécie, até parecer um balão repugnante, esperando a misericórdia que não virá. Aguardo o pontapé que me explodirá e vejo a aproximação da lâmina desnecessariamente grande a me esvaziar. Adeus, a gente se vê por aí.