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Último
pedido
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10/05/2001 |
Qual será seu último
pedido ? Quando se defrontar com o derradeiro minuto,
o que não poderá te ser negado ?Montaigne,
prevendo ser surpreendido um dia com o destino de
todos nós, torcia por essa ocasião coincidir
com sua colheita de repolhos. O fuzilável tem
duas opções: o cigarro fumado até
o filtro - e que se dane o câncer no pulmão
e vamos acabar logo com isso -, e o heroísmo
estéril do "sem vendas, quero ver a morte
de frente".Elvis Presley, que morria todas as
noites às custas de doses proporcionais a seu
peso de barbitúricos e benzodiazepinicos, pedia
na ante sala da eternidade, porções
equivalentes de cheeseburgers e milk-shakes. O efeito
letal dos lanchinhos poderá ter sido a verdadeira
determinante de sua causa mortis. Ressuscitava todas
as tardes com auxílio de anfetaminas e as preces
roqueiras de suas fãs. Algumas, hoje cinquentonas,
têm certeza que o rei continua vivo e freqüentando
aquela lanchonete que virou alvo preferencial dos
anti-globalistas.Os torturados da inquisição
espanhola se apressavam a pedir a reconciliação
com a Igreja se livrando assim da imaginação
perversa dos Torquemadas, e às vezes ganhavam
a morte rápida no garrote vil. Chegavam ao
céu sem aquele cheiro de churrasco platino.O
cidadão comum, a quem o governador Covas restituiu
o direito à autonomia e dignidade, sempre estará
às voltas com um sério risco de desaparecer
deste mundo numa UTI. Ali, estará com os convencionais
tubos nos sete buracos de sua cabeça e outros
tantos nos acessos naturais, além dos especialmente
moldados por diligentes cirurgiões. Mas como
ser ouvido no meio do bip-bip dos aparelhos ? E pela
traqueostomia, o melhor que pode é emitir as
monossílabas da agonia. Esta vítima
da inevitável degeneração pedirá
para voltar a seus familiares, à sua cama e
travesseiro. Implorará para morrer em paz.Maiakovsky,
na melhor tradição das estepes, dizia
que era melhor morrer de vodka do que de tédio.
Um Martini para quem adivinhar seu último pedido.
Goethe ao morrer, pediu "Mehr Licht" (mais
luz). Isso porque era poeta e sabia que sua frase
passaria à posteridade. Os outros, que somos
todos nós, pediremos mais tempo. Só
mais um pouquinho. Mais um dia só...
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