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Valnei e seu irmão

14/03/2002


A existência de Valnei cadenciava serena. Herdara o gosto pela vida, a pouca ambição e o fatalismo flutuante dos que são conscientes de que deste mundo nada se leva. Ouvira (ou lera) uma vez a história do Bispo Canterburry, que fora enterrado com os braços para fora do caixão, mostrando assim seu desprendimento com os bens terrenos; e gostava de repeti-la para os amigos.A contrapartida ao Valnei, por razões que só pode ser explicado pela dialética das leis do universo, era seu próprio irmão. Este, desde jovem buscava o poder, a fartura e a evidência dos bem sucedidos. Negligenciara os estudos regulares e devorava aquela literatura de auto-ajuda, da inteligência emocional e de todas as supostas chaves do sucesso. Embebedou-se nas teses cínicas, que detalhavam nas linhas de pseudo-escritores oportunistas, os caminhos para o sucesso a qualquer preço. Aprendeu com os exemplos que inevitavelmente recheavam o pouco conteúdo das brochuras em questão, as formas de enriquecimento rápido e determinado pela força de vontade.Assimilou a lição e pisoteando a moral e os escrúpulos, lançou-se na aventura dos valores modernos e logo se tornou rico e poderoso. Engana-se o incauto ao imaginar que a coisa é tão fácil assim. Esse tipo de sucesso não é alcançado apenas por osmose das tediosas reflexões e imaginativas histórias dos livrinhos em questão. Exigem uma boa dose de sorte, oportunidades e algum talento. Mas antes de tudo , uma férrea vontade em ignorar os sussurros da consciência e do respeito ao próximo. Valnei, por ser tolerante, ignorava a sentença de Proudhomme, onde se dizia que atrás de toda fortuna havia um crime. Limitava-se a observar (silente) o paradoxo dos usos da riqueza. Não compreendia - e essa é a maior crítica que se fazem às gentes de poucos recursos - os modismos e os valores da comunidade dos bem sucedidos. Observara muitas vezes na revista semanal que assinava, as classificações das nações do mundo no item “qualidade de vida” e seu dedo tinha de descer muitos centímetros para encontrar a pátria em companhia de nações africanas quase tribais e outras de colonização hispânica incompleta. No topo lustravam os G7 . Ao contrário de Valnei, que aceitava sem maior discussão os critérios que privilegiavam os semi deuses da opulência, se questionava se realmente o número de vídeo cassetes, tamanho de freezers, vagas na garagem e instrução tecnocrática podiam ser comparados à sua vidinha de poucos haveres. Lera também do sonho de cada japonês em um dia possuir um pequeno jardim de 3 metros quadrados onde cultivar seus bonzais, da delicia da água mineral de 17 reais o litro , do vinho de 15 mil dólares a garrafa (R$ 2.500 o gole) , das blusinhas da Daslu, e dos carrões que permaneceriam abrigados nas garagens até chegar a hora da blindagem. Valnei ponderava que nada no mundo substituía seu quintal, a sombra de seu cajueiro, seu churrasquinho de lingüiça, a viola , a pescaria e as sandálias havaianas. Meditou também sobre a extensão do valor do poder e da riqueza.Valnei não invejou seu irmão, até mesmo porque sabia que acabaria por ser sua vidinha modesta objeto de cobiça. Concluiu que o excesso de dinheiro só tinha como função poder ser objeto de exibição. E foi cuidar das linhas e dos anzóis naquela manhã que se prometia magnífica.